Paulo Guedes voltou ao palanque da análise pública para anunciar o óbvio com a solenidade de quem descobriu que o fogo queima. Segundo ele, a desaceleração econômica provocada pela gestão fiscal do governo Lula abre caminho para a oposição em outubro. Certo. Mas o que vale notar não é a profecia, que qualquer leitor de jornal de segunda consegue fazer, e sim a arquitetura do problema que ele aponta, porque essa arquitetura não é acidental, não é erro de cálculo, não é incompetência gerencial. É a lógica natural de um governo que confunde o tesouro público com caixa de partido e depois se espanta quando o balanço sangra.

Existe uma ilusão antiga, tão antiga quanto o primeiro rei que taxou o grão para financiar a própria estátua, segundo a qual o Estado pode expandir gastos indefinidamente sem que a realidade apresente a fatura. Toda vez que essa ilusão encontra um governo disposto a alimentá-la, o ciclo se repete com a pontualidade de um relógio suíço: gasto público infla, crédito estica, inflação rosna, juros sobem, crescimento murcha, e o eleitor que votou pela promessa de que o Estado ia resolver tudo percebe, tarde demais, que estava financiando a promessa com o próprio bolso. O Brasil de 2026 está no meio desse ciclo. Guedes não descobriu o ciclo; apenas anunciou em que ponto do giro o ponteiro está.

O problema com a análise do ex-ministro não é que ela esteja errada. É que ela está incompleta, e incompleta de um jeito conveniente. Porque Guedes administrou quatro anos de um governo que também não teve coragem de cortar o Estado onde ele precisa ser cortado, que reformou aqui, fingiu reformar ali, e entregou ao seu sucessor um aparelho fiscal ainda voraz, ainda caro, ainda dependente de tributo como um vício dependente da veia. O que o lulopetismo fez foi pegar essa estrutura e ligar o turbo no acelerador. A diferença de grau é real, mas a diferença de natureza é menor do que o palanque liberal quer admitir. Dizer que o paciente está mais doente não exime o médico anterior de ter deixado a infecção crescer.

Mas voltemos ao concreto, porque é lá que mora o diabo. A política fiscal de Lula expandiu gastos obrigatórios, criou novos programas de transferência, recompôs carreiras do funcionalismo e, ao mesmo tempo, tentou segurar o déficit com o velho truque de aumentar a arrecadação, que em bom português significa: tirar mais dinheiro de quem produz para cobrir o custo de quem administra. Quando a arrecadação não acompanha o ritmo do gasto, como invariavelmente acontece porque a economia real tem limites que a planilha do Ministério não respeita, o resultado é pressão sobre juros, desconfiança do mercado de crédito e desaceleração do investimento privado. Não é teoria. É o que está acontecendo agora, numericamente, verificável em qualquer boletim do Banco Central.

A ironia política, e Guedes deveria saborear isso com mais autoconsciência do que demonstrou, é que o eleitor brasileiro tem uma memória seletiva, porém não infinitamente elástica. Ele aguenta um mandato de promessas não cumpridas. Aguenta a inflação corroendo o salário com certa paciência, especialmente se a televisão garantir que a culpa é do mercado, do imperialismo, da seca ou da maré. Mas quando o preço da carne, do aluguel e do botijão fala mais alto do que o locutor do jornal noturno, a narrativa começa a ranger nas dobradiças. Outubro de 2026 será a medida de quanto essa dobradiça ainda aguenta. Guedes apostou que não aguenta. Pode estar certo. Mas a direita que vier depois disso tudo terá de decidir se quer realmente desmontar o Estado ou apenas trocar os mãos que o operam, que é o jogo que se joga desde sempre neste país.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.