O espetáculo começou pelo fim, como sempre. Antes de qualquer paulista ouvir uma proposta concreta sobre segurança, transporte, saúde ou a montanha de impostos que esmaga a vida produtiva no estado mais rico da federação, os partidos da chamada base aliada já se acotovelam pelos cargos da chapa que sequer foi oficializada. O PDT, pela voz de seu presidente nacional, reivindica a vaga de vice na candidatura encabeçada pelo ministro da Fazenda. PSB e Rede disputam, nos bastidores, qual dos dois indica o nome ao Senado. Ninguém, absolutamente ninguém, fala sobre o que pretende fazer no governo. Falam sobre o que pretendem ganhar com ele.
Há uma honestidade involuntária nesse balcão. A política partidária brasileira finalmente parou de fingir que é outra coisa que não a partilha de despojos antes da batalha. Lembra aquelas cortes europeias decadentes em que os nobres negociavam ducados e bispados antes mesmo de o rei sentar no trono. A diferença é cosmética. Lá se chamava patrimonialismo aristocrático; aqui se chama federação partidária. O conteúdo é o mesmo: distribuir antecipadamente as fatias de um bolo que ainda nem foi assado, e que será assado, claro, com a farinha tirada do bolso de quem trabalha.
Convém perguntar o óbvio que ninguém pergunta. O que exatamente uma legenda como o PDT, reduzida a um pingo no mapa eleitoral paulista, oferece em troca da vice de um estado que move quase um terço da economia nacional? Voto, certamente não. Quadros técnicos, tampouco. O que se oferece é a permissão para usar a sigla, o tempo de televisão, o fundo partidário milionário bancado por imposto compulsório, e a rede de cargos comissionados que cada legenda traz consigo como dote. A barganha, portanto, não é entre representantes do povo; é entre administradores de feudos burocráticos negociando a quem caberá nomear o secretariado, distribuir cargos de confiança, indicar diretores de estatais e operar editais de publicidade.
Siga a trilha simples do dinheiro e o teatro se desfaz. O Senado paulista controla relatorias, comissões, indicações para tribunais de contas e agências reguladoras. A vice do governo estadual, em qualquer cenário razoável, herda secretarias inteiras, cota de nomeações, acesso ao orçamento publicitário e poder de assinatura em convênios. Cada cadeira nessa chapa é um portão de pedágio sobre o contribuinte paulista, e a briga é por quem fica com a guarita. Quando o presidente de um partido nanico diz que reivindica espaço, o que ele está dizendo, em português direto, é que pretende cobrar aluguel de algo que não construiu, sobre dinheiro que não produziu.
O mais saboroso é o vocabulário. Reivindicar, pleitear, articular, equilibrar a chapa, contemplar as legendas. Uma linguagem inteira foi inventada para esconder a coisa simples e feia que está acontecendo: a divisão prévia do espólio do contribuinte por agentes que nunca foram autorizados a fazer essa divisão. O eleitor, esse coadjuvante incômodo, será chamado em outubro de 2026 para legitimar com o voto um arranjo que foi fechado em sala fechada com café, planilha e calculadora. Vai chamar de democracia o que é, na prática, ratificação plebiscitária de um cartel.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta da política nacional. Quem paga essa festa toda, dos jantares de articulação aos santinhos impressos com fundo eleitoral, das pesquisas internas aos salários dos marqueteiros? O paulista que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, recolhe ICMS em cada pão francês e financia, sem ser consultado, a engenharia que decidirá, à sua revelia, quem terá o direito de governá-lo. E quem recebe? Os de sempre, com nomes diferentes a cada ciclo, vestindo a mesma fantasia de servidor público sobre o mesmo corpo de proprietário de cargo. O resto é prosa.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.