Diz a notícia, com aquele ar de descoberta solene, que as pegadas deixadas pelos astronautas em 1969 podem sobreviver por milhões de anos lá em cima, congeladas num solo sem vento, sem chuva, sem rio, sem bicho, sem nada. A manchete é vendida como poesia cósmica, mas o que ela conta de verdade é outra coisa: o maior monumento permanente jamais erguido pela humanidade é a sola de uma bota subsidiada, fincada num deserto sem dono, pagando juros até hoje no bolso de cada americano que respira. Eternidade, no fim das contas, custa caro, e quem pagou a conta não foi o astronauta.
Faça as contas frias, sem o brilho da bandeirinha fincada de propaganda. O programa lunar consumiu, em valores atualizados, algo perto de duzentos e cinquenta bilhões de dólares, num tempo em que dólar ainda era coisa séria. Esse dinheiro não brotou de doação espontânea, não veio de bilionário comovido com o destino da espécie, não saiu do bolso de quem assistia à transmissão em preto e branco. Veio do imposto, do confisco compulsório, do mesmo arranjo de sempre: o cidadão fica sem o salário e o governo fica com o troféu. A pegada eterna na Lua é, na prática, um recibo eterno do contribuinte que nunca foi consultado sobre se queria mesmo bancar a aventura.
E aqui mora a piada cósmica que ninguém quer rir. O mesmo Estado que jura não conseguir tapar buraco de rua, não conseguir pagar professor, não conseguir entregar leito de hospital, esse mesmo Estado conseguiu, num átimo histórico, colocar gente caminhando a trezentos e oitenta mil quilômetros de distância e deixar lá um rastro que vai durar mais que a própria civilização que o produziu. Não é incompetência, portanto. É escolha. O dinheiro existe, o que falta é vontade política de aplicá-lo onde rende voto morno em vez de propaganda triunfal. A bota lunar é a confissão escrita de que tudo o que governo diz ser impossível é, na verdade, indesejável aos donos da máquina.
Lembre-se ainda do contexto: era guerra fria, e cada parafuso enviado ao espaço era parafuso fincado no peito do rival soviético. A corrida lunar não foi conquista da humanidade, foi propaganda de Estado disfarçada de ciência, paga com tributo de gente que jamais veria a Lua de perto. Os impérios sempre fizeram isso. Construíram pirâmide para mostrar quem mandava no Nilo, coliseu para mostrar quem mandava no Tibre, catedral gótica para mostrar quem mandava nas almas. A diferença é que pirâmide ao menos serviu de túmulo, coliseu serviu de espetáculo, catedral serviu de fé. A pegada na Lua serve a quem? À memória do contribuinte, que continua pagando boleto na Terra enquanto sua bota imortal jaz num cinza absoluto.
O detalhe técnico, esse sim delicioso, é o que dá ao texto sua moral involuntária. Na Lua não há vento que apague, não há chuva que dissolva, não há micróbio que corroa, não há político que reforme. Por isso a marca permanece. Traduzindo para o português dos vivos: onde não há Estado, onde não há intempérie burocrática, onde não há a fricção constante de regulamento atritando regulamento, as coisas duram. Aqui embaixo, ao contrário, tudo apodrece em ritmo acelerado, e não é por causa da chuva. É porque cada centímetro de solo é raspado por imposto, taxa, multa, alvará, licença, ofício, decreto e portaria que se renovam mais rápido que a maré. A Lua dura porque ninguém legisla sobre ela. Anote o silogismo silencioso e tire suas conclusões.
Resta a pergunta de sempre, a única que importa: quem pagou e quem recebeu? Pagou o operário americano de 1965, o aposentado, a viúva, o sujeito qualquer que viu seu contracheque encolher sob retenção federal. Recebeu o complexo industrial aeroespacial, recebeu a burocracia da agência espacial, receberam os contratos gordos das empresas amigas, receberam os engenheiros estrelados, recebeu a vaidade nacional embrulhada em bandeira. E recebeu, sobretudo, o próprio Estado, que comprou com dinheiro alheio a maior peça publicitária da história, uma pegada inarredável que serve de outdoor permanente a um modelo de organização social que, cá em baixo, não consegue sequer manter a calçada inteira. A eternidade, descobrimos, é só mais uma coisa que se compra com confisco. E o pior é que vão continuar cobrando.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.