A cena é digna de pesadelo bíblico. O sujeito caminha pela margem, contempla a água barrenta com aquela placidez de quem acredita que rio é coisa mansa, e de repente a superfície explode. Um bicho de escamas sobe do fundo com a fome de quem não leu o manual da cadeia alimentar e arrasta para baixo uma ave que tinha o azar de estar viva no lugar errado. Não é ficção, não é exagero de pescador bêbado em bar de beira de estrada. É o novo normal das águas doces brasileiras, onde peixe virou predador de bicho de pelo e pena, invertendo a hierarquia que aprendemos no livro de ciências do quarto ano.
A primeira reação do espírito moderno é o pavor moral. Como assim um peixe come passarinho? Que abominação, que desequilíbrio, que urgência de criar uma secretaria, um comitê, um imposto verde para corrigir a natureza. Calma. A natureza não está desequilibrada; ela está fazendo o que sempre fez, que é matar e comer sem pedir licença ao Ibama. O escândalo não está no peixe. O escândalo está na pretensão humana, sempre renovada, de que um ecossistema é uma planilha de Excel que se ajusta com decreto e selo de sustentabilidade emitido em Brasília mediante taxa.
Há uma lição antiga aqui, e ela vem das margens do Nilo, onde sacerdotes egípcios juravam controlar a cheia com ritos enquanto o rio subia e descia conforme a chuva nas montanhas da Etiópia, ignorando solenemente a liturgia oficial. O homem da caverna entendia que o bicho grande come o bicho pequeno e ponto. Foi preciso a invenção do funcionário público de carteira para que alguém acreditasse que se pode legislar sobre apetite alheio. O peixe não sabe que existe lei de proteção à fauna. O peixe sabe que tem fome, que a ave é proteína, e que o fundo escuro do rio é o restaurante onde ele janta em paz.
Repare na trilha do dinheiro, porque ela existe mesmo nas reportagens que parecem só naturalismo de revista de bordo. Toda vez que um fenômeno natural assusta o público urbano, nasce uma indústria do medo regulatório. Aparece o consultor ambiental, o ONG profissional, o pesquisador que precisa renovar a bolsa, o político que precisa de bandeira, e logo se descobre que o peixe ameaçado, ou ameaçador, depende de novo programa federal com orçamento anual reajustável. Quem paga? O contribuinte, sempre. Quem recebe? A casta que vive de mediar o pânico entre o cidadão e a realidade. O monstro do rio rende mais palestra do que pescaria.
O fato bruto, porém, é magnífico em sua simplicidade. Se um peixe cresceu, é porque encontrou comida abundante e poucos predadores. Se ele caça na superfície, é porque a superfície oferece banquete. A regra não mudou; mudou o cardápio. Quem se assusta com a inversão alimentar deveria se assustar mais com a inversão moral de uma sociedade que terceiriza a curiosidade para algoritmos e o medo para autoridades. O ribeirinho que vive da margem sabe disso há séculos e nunca precisou de seminário internacional para entender que o rio é um bicho vivo, faminto, indiferente.
No fim, o monstro aquático é menos perigoso do que o monstro de gravata que vê na notícia uma oportunidade de criar mais uma camada de tutela sobre a vida alheia. O peixe come para viver. O burocrata legisla para se reproduzir. Entre os dois predadores, prefiro o que ao menos tem a honestidade de mostrar os dentes antes do bote. A natureza, abençoada seja, ainda não aprendeu a cobrar taxa de inspeção antes de devorar a presa.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.