A cena é digna de um teatro de marionetes onde os fios foram pintados da cor da parede. Perfis com rostos que nunca respiraram, vozes que nunca pronunciaram uma sílaba diante de um microfone real, despejam mensagens de devoção ao presidente americano em três das maiores praças digitais do planeta. Ninguém sabe quem são, ninguém assume, ninguém aparece. E quando se pergunta de onde vem o dinheiro que sustenta a operação, o silêncio é tão eloquente quanto uma confissão assinada em cartório.

Toda campanha tem um pagador. Essa é uma lei tão antiga quanto a primeira moeda cunhada por algum tirano da Antiguidade para comprar a lealdade de seus mercenários. O panfleto pago pelo barão grita o nome do barão; o jornal financiado pela companhia das Índias enaltece a companhia das Índias; o cordel distribuído pelo coronel canta o coronel. A diferença é que, no século dezenove, o sujeito tinha pelo menos a decência rude de imprimir o próprio nome no rodapé. Hoje, o coronel se esconde atrás de um servidor numa jurisdição obscura e contrata um exército de bonecos sintéticos para fazer o trabalho que antes exigia compadres de verdade.

Observe a engenharia da coisa. Se mil contas anônimas, com avatares gerados em segundos por uma máquina, repetem a mesma mensagem em coro, o algoritmo das plataformas interpreta como tendência orgânica e empurra o conteúdo goela abaixo dos eleitores reais. O cidadão comum, que ainda confunde quantidade com legitimidade, acredita estar diante de um movimento popular espontâneo. É a velha técnica da claque romana, aquela turba paga para aplaudir o orador no fórum, agora terceirizada para data centers. A diferença é que a claque romana custava pão; essa custa milhões, e alguém está pagando a conta com prazer.

A pergunta incômoda, que a imprensa profissional finge não ouvir, é quem se beneficia diretamente do estratagema. Não é o eleitor, que recebe propaganda disfarçada de conversa de boteco. Não é a plataforma, que finge moderar enquanto fatura com o engajamento artificial. O beneficiário é evidente, e por isso mesmo é o último que será investigado. Quando o suspeito tem o poder de nomear procuradores, regular agências e abrir ou fechar contratos bilionários, a investigação morre antes de nascer. É assim que funciona o cassino: a banca sempre ganha, e quem reclama é convidado a sair pela porta dos fundos.

Há ainda o detalhe filosófico, que ninguém quer enfrentar. Uma sociedade que aceita ser persuadida por entidades que não existem renunciou silenciosamente à exigência mais básica do debate público, que é a presença de um interlocutor responsável por suas palavras. Quando o emissor é um fantasma, não há quem processar por calúnia, não há quem confrontar com fatos, não há quem envergonhar com a verdade. O discurso flutua livre de qualquer âncora moral, e o resultado é a transformação da política em ventriloquismo industrial. As coisas, porém, continuam sendo o que são: uma operação de propaganda paga é uma operação de propaganda paga, ainda que vista a fantasia de espontaneidade popular.

O que se vê é o velho jogo travestido de novidade tecnológica. Trocaram o santinho impresso pelo deepfake amigável, o cabo eleitoral pelo bot, o caixa dois pela cripto rastreável apenas em tese. A essência é a mesma desde que o primeiro demagogo descobriu que comprar aplausos é mais barato do que merecê los. Resta saber se o eleitor vai continuar fingindo que não percebe, ou se um dia terá a coragem rara de perguntar, antes de aplaudir, quem está pagando para que ele aplauda.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.