Trinta e cinco candidatos. Parem um momento e deixem esse número sentar. Numa república funcional, a disputa presidencial é a culminação de um debate civilizatório, o momento em que uma nação olha para si mesma e decide que rumo tomar. No Peru de 2026, esse momento se parece com uma fila de banco numa segunda-feira chuvosa: todo mundo quer alguma coisa, ninguém sabe muito bem o quê, e o atendente já foi embora. A favorita lidera com quinze por cento. Quinze. O que significa, traduzindo para o português honesto, que oitenta e cinco por cento do eleitorado prefere qualquer outra coisa a ela. E ela vai, muito provavelmente, governar o país. Chamem isso de democracia se quiserem. Eu chamo de legitimidade fabricada.
Keiko Fujimori não é uma surpresa. É um sintoma. O Peru é um país que já elegeu seu pai, Alberto Fujimori, com um discurso de "choque de realidade" nos anos noventa, viu a economia estabilizar à custa de uma autarquia controlada por um aparato de inteligência que transformou o Congresso em departamento de contabilidade do Executivo. O filho pôde estudar nos Estados Unidos, a filha aprendeu o ofício no gabinete, e agora ela volta com o mesmo discurso de sempre: segurança, alinhamento com Washington, punho de ferro embrulhado em papel democrático. É a velha receita. Funciona porque o eleitor, após anos de rapina petista, castrista e do socialismo de colarinho branco que infestou Lima como infesta Brasília, está tão exausto que qualquer coisa que pareça "ordem" parece civilização. A desordem crônica fabrica mercado para o autoritarismo. Sempre foi assim. Pergunte aos romanos como chegaram a Júlio César.
O problema profundo não é Keiko. O problema é o sistema eleitoral que produziu trinta e cinco candidatos como se produzissem candidatos no atacado, vendidos por quilo na feira de vaidades da política latino-americana. Cada partido é uma empresa de intermediação, cada candidatura é um projeto de captação de recursos públicos, cada coligação é uma joint venture para dividir o butim do Estado entre os sócios. A fragmentação não é acidente, é design. Quando o poder se dispersa entre trinta e cinco pretendentes, o vencedor chega ao Palácio de Governo sem maioria parlamentar, sem mandato real, sem legitimidade substantiva, e completamente dependente de negociações com os mesmos caciques que fragmentaram o campo. O Estado captura o governante antes que o governante governe. É a armadilha perfeita: você entra achando que vai reformar o sistema e o sistema te digere no jantar.
Siga o dinheiro. Sempre. No Peru, como em todo o continente, a proliferação de partidos e candidaturas não é expressão vibrante de pluralismo cívico. É a marca registrada de uma economia política onde o acesso ao aparato estatal, às licitações, às agências regulatórias, aos fundos públicos, vale mais do que qualquer negócio produtivo. Quando o Estado cresce além de certo ponto, ele deixa de ser árbitro e vira prêmio. Quem controla o Estado controla o fluxo de riqueza, e quem controla o fluxo de riqueza tem razões muito concretas para participar de eleições, financiar partidos, comprar coligações e, se necessário, criar o seu próprio movimento do zero com nome de virtude cívica e programa de doze páginas que não obriga ninguém a nada. O Peru tem trinta e cinco candidatos porque o Estado peruano vale a pena disputar. Isso não é democracia florescente. É canibalismo organizado.
Keiko vai liderar porque o voto útil num cenário de camelô eleitoral funciona como âncora de pânico: as pessoas não votam no que amam, votam no que menos odeiam entre os que têm chance. E ela tem chance porque o nome, a máquina e o dinheiro herdado da era Fujimori ainda funcionam como estrutura. Num país sem memória institucional consolidada, onde presidentes são presos com regularidade quase metronômica, onde a corrupção é tão sistêmica que parou de ser escândalo e virou paisagem, o apelo à "mão firme" sempre encontra clientela. O eleitor peruano não é burro, é exausto. E gente exausta toma decisões ruins com a convicção de quem não tem outra saída. A tragédia não está no voto. Está na arquitetura que não deixa alternativa decente.
O que o Peru exporta para o continente com essa eleição não é esperança democrática. É um manual de como neutralizar a vontade popular por dentro da própria democracia formal. Não precisas de golpe, não precisas de tanque na rua, não precisas de censura explícita. Basta multiplicar os candidatos até que a maioria se dissolva em ruído, garantir que o vencedor chegue sem mandato real, e aguardar enquanto o aparato estatal digere o político eleito e cuspe o funcionário dócil. Repete-se o ciclo. O povo escolhe, o sistema absorve, a conta fica para o contribuinte. Enquanto isso, em Lima, trinta e cinco pessoas ensaiam discursos de esperança numa língua que o país já não acredita mais.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.