Trinta e dois nomes tentaram, em seis eleições presidenciais consecutivas, romper o cerco do clube dos eleitos. Em quatro dessas disputas, somados como quem junta migalhas debaixo da mesa, esses azarões não passaram dos 4% dos votos. Apresentam o dado como curiosidade sociológica, como se fosse uma anomalia simpática do nosso sistema. Não é. É a fotografia do funcionamento perfeito de uma engrenagem desenhada para que ninguém de fora entre na sala onde se reparte o butim.

Convém perguntar o óbvio que ninguém pergunta: quem financia as candidaturas que aparecem no horário nobre? Quem recebe os bilhões do fundo partidário e do fundo eleitoral, abastecido pelo bolso de quem trabalha e nunca votou para que esse dinheiro existisse? A resposta é sempre a mesma meia dúzia de siglas com endereço fixo em Brasília, com diretórios montados há décadas, com tempo de televisão herdado como se fosse título de nobreza. O outsider chega na competição já devendo dois tempos de jogo, com chuteira emprestada e gandulas torcendo contra. Depois aplaudem o resultado como prova de que o povo escolheu. Escolheu o quê, se a urna só oferecia o cardápio da casa?

A história está cheia desses arranjos vendidos como democracia. O Senado romano em seus últimos suspiros também fazia eleições, e as famílias patrícias se revezavam no consulado enquanto a plebe aplaudia o circo. Veneza elegia seu doge com regras tão labirínticas que apenas as casas mais antigas conseguiam decifrar o caminho até o poder. O figurino muda, o roteiro permanece: cria-se a aparência da escolha popular, garante-se o filtro institucional, e quem ficou de fora vira nota de rodapé em pesquisa acadêmica vinte anos depois.

O detalhe saboroso é que esses mesmos partidos que monopolizam o pleito vivem do imposto extraído sob ameaça de cana. O cidadão paga para sustentar a estrutura que o impede de ter alternativa real. Paga o salário dos marqueteiros, o aluguel dos comitês, a passagem aérea do cabo eleitoral, o cafezinho do delegado partidário em cidade do interior que ninguém ouviu falar. E ainda lhe dizem, com cara séria, que isso fortalece a democracia. Fortalece o cartel, que é coisa bem diferente. Cartel não compete, cartel reparte. E quando aparece um intruso, basta apertar dois parafusos da legislação eleitoral, exigir cláusula de barreira aqui, federação partidária ali, e o intruso some.

O silogismo é constrangedor de tão simples. Se um sistema produz, ao longo de duas décadas, trinta e duas candidaturas externas com resultado coletivo abaixo de 4%, então esse sistema não está aberto à renovação. Se não está aberto à renovação, então as eleições funcionam como ritual de confirmação, não como mecanismo de escolha. Se funcionam como ritual de confirmação, então o discurso da soberania popular é peça de relações públicas. Não é xingamento, é aritmética. Quem quiser refutar, que apresente o outsider vitorioso. Não há. E os que tentaram, ou se entregaram à máquina pelo caminho ou viraram piada acadêmica.

Resta a pergunta inicial, intacta e incômoda. Quem paga essa festa em que só os convidados de smoking dançam? Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus até o emprego. Quem recebe? A confraria que se autorrenova a cada quatro anos jurando que dessa vez vai ser diferente. Os outsiders não perderam. Eles cumpriram o papel de extras no filme em que os protagonistas já estavam contratados antes da bilheteria abrir.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.