A pesquisa divulgada nesta segunda lança ao chão o último mito que sustentava a oposição organizada em torno do clã: a tese de que o sobrenome, sozinho, vale voto suficiente para chegar ao segundo turno e vencer. Os números do levantamento contratado mostram o senador empatado tecnicamente, sim, mas empatado por baixo, enquanto dois governadores aparecem no mesmo patamar sem precisar carregar nas costas a herança simbólica de uma família que virou, ao mesmo tempo, marca registrada e processo judicial ambulante. Quando o herdeiro precisa de DNA para se manter de pé e os outros não precisam, o DNA deixou de ser ativo e virou passivo no balanço.
Sigamos o dinheiro, porque é ali que toda solenidade política se despe. Candidatura presidencial competitiva no Brasil custa, conservadoramente, centenas de milhões em fundo partidário, em tempo de televisão, em estrutura logística, em advogados, em marqueteiros pagos a peso de ouro com recurso público travestido de fundo eleitoral. Esse dinheiro, que sai do bolso do açougueiro de Caxias e do pedreiro de Sobral via imposto, não vai para quem o contribuinte escolheu. Vai para quem o cacique partidário decidiu ungir. E o cacique partidário, ao contrário do eleitor emocionado, lê pesquisa como pecuarista lê balança: número que não engorda vira churrasco.
O silogismo é simples e dispensa floreio. Partido existe para chegar ao poder; chegar ao poder exige candidato viável; candidato viável é aquele que vence a pesquisa, não aquele que vence o coração do militante de WhatsApp. Logo, o aparelho partidário, que sobrevive de verba estatal e por isso só obedece a uma lei, a da própria perpetuação, abandonará o sobrenome no minuto exato em que o sobrenome custar mais do que rende. Não há gratidão em política financiada com dinheiro alheio; há contabilidade. Quem confundiu uma coisa com a outra vai aprender da forma cara, como sempre se aprende quando se confia em estrutura mantida com confisco.
É instrutivo lembrar que isso já aconteceu antes, e sempre da mesma maneira. Quando o império romano percebeu que sustentar determinada dinastia custava mais legiões do que rendia províncias, a guarda pretoriana simplesmente trocou de imperador entre uma refeição e outra, sem cerimônia e sem culpa. Os governadores que hoje aparecem competitivos cumprem exatamente esse papel: são a guarda pretoriana de toga civil, com a vantagem adicional de exibirem o que o herdeiro não tem, uma máquina estadual ajustada, contas que fecham no azul artificial das estatísticas oficiais e, sobretudo, ausência de processos da magnitude que tornam o nome principal um custo fixo insuportável.
O eleitor que ainda acredita estar diante de uma disputa entre o bem e o mal precisa entender o teatro em que entrou sem comprar ingresso. O que se chama de oposição é, na maior parte, a mesma fila do mesmo bufê, com a diferença de que uns querem servir antes dos outros. Governador que administrou estado inflando folha de pagamento, dando benesse a corporação e usando o orçamento como cabo eleitoral não é antípoda de coisa nenhuma; é variante administrativa do mesmo arranjo, com gravata mais discreta e currículo apresentável ao mercado financeiro, que também precisa eleger alguém para continuar emprestando ao Tesouro a juros de agiota com selo oficial.
No fim, a pergunta que importa não é qual rosto aparece no horário eleitoral, e sim quem paga a conta e quem recebe o cheque. O contribuinte paga, sempre. O aparelho recebe, sempre. O sobrenome que ontem era marca e hoje é passivo será descartado com a mesma frieza com que o aparelho descarta promessa de campanha no dia seguinte à posse. E os fiéis que se emocionaram com bandeira, hino e foto de família vão descobrir, mais uma vez, que estavam torcendo num jogo cujo placar é decidido antes do apito, num escritório que eles nunca pisaram, com dinheiro que saiu do salário deles.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.