O número saiu e incomodou muita gente no circuito das chancelarias bem-comportadas: oitocentos cubanos e cubano-americanos ouvidos em Miami-Dade, Broward, Palm Beach e Monroe, e a maioria absoluta dizendo, sem rodeios, que aceita intervenção militar para derrubar o regime de Havana. Não é apoio morno, não é ressalva acadêmica, é apoio recorde. E a pergunta que ninguém da imprensa simpática quer fazer é a mais elementar: por que justamente quem viveu na carne o experimento socialista, quem perdeu casa, parente e país, quem atravessou o estreito da Flórida em câmara de ar e pneu velho, quer ver tanque na praça da revolução? A resposta dispensa sociólogo. Eles sabem o que a ilha é. Os outros é que insistem em fingir que não.

Há nessa comunidade uma memória que o resto do mundo terceirizou para o esquecimento conveniente. Cada família ali carrega uma propriedade confiscada, um avô fuzilado no paredón, um primo apodrecendo em cela política, uma fila de racionamento que durou décadas e ainda dura. Enquanto a intelectualidade internacional fazia turismo revolucionário em Varadero, comprando charuto e camiseta com a cara do guerrilheiro de boutique, essa gente enterrava os mortos e contava os anos. Sessenta e tantos anos de paciência diplomática, de embargos furados pela hipocrisia europeia, de papas beijando a mão do ditador, de cantores progressistas posando com o tirano. A conta veio. E ela está sendo cobrada na pesquisa.

O ponto que escapa aos comentadores de plantão é a economia do silêncio. Quem ganha em manter Cuba congelada no tempo? Ganha a casta militar verde-oliva que controla todo o setor turístico através das forças armadas, ganham os generais que viraram empresários de hotel cinco estrelas onde o cubano comum não pode pisar, ganha a rede de funcionários que troca dólar no mercado paralelo enquanto o povo come abacaxi com casca. Ganha também, e isso é o mais cínico, toda a indústria internacional do romantismo revolucionário, que vende livros, documentários, camisetas e cátedras universitárias inteiras sustentadas pela manutenção do mito. Cuba pobre é negócio próspero. Para quase todo mundo, menos para o cubano.

A objeção previsível virá das almas delicadas que repetem o catecismo da não intervenção como se fosse princípio sagrado, esquecendo que o mesmo princípio foi cuspido sobre Iraque, Líbia, Síria, Iêmen, sempre com a bênção das mesmas vozes que agora descobrem o pacifismo quando o regime alvo é de esquerda. A coerência tem CEP. Quando a tirania é fardada e vermelha, vira soberania nacional inviolável. Quando é fardada e de outra cor, vira problema humanitário urgente. O leitor que não enxerga essa engrenagem não está lendo jornal, está engolindo bula. A questão não é se a intervenção é boa ou má em abstrato, a questão é por que a régua muda conforme o freguês.

Há ainda o silogismo cru que ninguém ousa montar em público. Se o regime é legítimo, por que precisa proibir eleição livre? Se tem apoio popular, por que prende quem protesta com cartaz de papelão? Se a revolução triunfou, por que continua atirando em quem tenta sair de barco? As premissas se montam sozinhas e a conclusão é incômoda demais para o jornalismo de coquetel. O regime sobrevive porque é máquina de coerção, não porque é projeto de libertação. E quem morou dentro da máquina sabe disso melhor que qualquer professor de relações internacionais escrevendo coluna no ar condicionado de Brasília.

O resultado da pesquisa, no fundo, é menos uma opinião e mais um diagnóstico. É a voz acumulada de gerações que tiveram a vida sequestrada por um experimento que o resto do planeta insiste em chamar de utopia traída, de boa ideia mal executada, de socialismo distorcido. Para quem viveu lá, não é distorção nenhuma, é o produto entregue conforme o manual. E é exatamente por isso que a diáspora, agora, quer o fim e não a reforma. Reforma de cárcere é tese de doutorado. Quem está dentro quer a porta aberta, e está pouco se importando com quem vai abrir.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.