O Instituto Paraná Pesquisas divulgou nesta segunda-feira, 11, o que metade da imprensa local fingiu surpresa e a outra metade já sabia desde o cafezinho da terça passada: Sergio Moro, do PL, lidera em todos os cenários testados para o governo do Paraná. A notícia em si é menos interessante do que o ritual que ela inaugura, e o ritual é sempre o mesmo, repetido com a pontualidade litúrgica de uma missa de domingo. Pesquisa sai, nomes sobem, nomes descem, e por trás de cada ponto percentual há um cálculo silencioso sendo feito em escritórios que o eleitor jamais verá: quanto vale apostar nesse cavalo, quanto custa não apostar, e quem fica com o quê depois da corrida.
Convém olhar o quadro com olhos secos, sem o entusiasmo barato dos comentaristas que tratam eleição como campeonato esportivo. Moro chega à frente carregando um capital simbólico construído sobre uma operação que prometia o fim da impunidade e entregou, no balanço final, um arranjo de poder rearrumado, com personagens trocando de cadeira mas a mesa intacta. Esse capital ainda rende, como rende qualquer marca bem posicionada, e há um partido inteiro disposto a lapidá-lo até a última gota antes que oxide. Quem paga a conta da lapidação? O contribuinte paranaense, claro, via fundo eleitoral, fundo partidário, tempo de TV custeado por renúncia fiscal, e toda a engenharia bilionária que transformou disputa de cargo em indústria subsidiada.
O silogismo é cruel e dispensa retórica: candidato competitivo atrai dinheiro, dinheiro atrai operadores, operadores cobram cargo, cargo se paga em emenda, emenda sai do bolso de quem trabalha. Não há mistério, não há nuance, não há terceira via. Toda candidatura viável é, antes de qualquer coisa, uma promessa de acesso futuro à torneira pública, e a fila para abrir essa torneira começa a se formar exatamente no instante em que o primeiro instituto solta o primeiro número. A pesquisa de hoje é o anúncio formal de que a torneira do Paraná tem dono provável, e que os interessados podem ir bater na porta com seus pedidos, planilhas e currículos de cabide.
Há ainda o detalhe pitoresco de o levantamento testar Moro contra adversários do espectro inteiro, do petismo ao centrão local, e em todos os cenários o resultado se repete. Isso costuma ser vendido como força do nome, mas diz mais sobre a fraqueza dos demais, sobre o vácuo de lideranças regionais e sobre a transformação da política estadual em mera extensão da disputa nacional. O Paraná, que já se orgulhou de ter projeto próprio, virou tabuleiro onde se joga uma partida cujas regras são definidas em Brasília e cujos resultados serão pagos em Curitiba, Londrina, Maringá e em cada município que continuará dependendo do humor do governador para receber a verba que, em tese, já era sua.
Não se iluda quem acredita que o resultado de uma eleição estadual muda a estrutura do arranjo. Muda o nome na placa, muda o partido na vitrine, muda o discurso no palanque, e a máquina segue funcionando com a mesma lógica de sempre: arrecadar muito, gastar mal, distribuir privilégios para quem está dentro e cobrar a conta de quem está fora. A pergunta honesta que ninguém faz nas entrevistas é simples e devastadora: o que, exatamente, deixa de ser confiscado do paranaense se Moro vencer? Que imposto cai, que estatal fecha, que privilégio desmonta, que cargo comissionado some do organograma? Enquanto a resposta for um silêncio constrangido, a vitória anunciada nas pesquisas é apenas a troca de garçom no mesmo restaurante caro onde o cliente nunca foi consultado sobre o cardápio.
Reste então a única pergunta que sobrevive a todas as eleições, a todos os candidatos, a todos os cenários testados pelos institutos: quem paga e quem recebe? O paranaense paga, sempre pagou, continuará pagando. Quem recebe muda de sobrenome a cada quatro anos, e é por isso que o circo nunca fecha as portas.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.