A três meses da eleição, o instituto Vox Brasil divulga os números de uma disputa que será vendida ao eleitor paulista como exercício cívico, debate de ideias, escolha de representantes. Convém traduzir a coisa para o português honesto. Sete pré-candidatos estão brigando por duas cadeiras que pagam salário polpudo, oferecem auxílio-moradia, auxílio-paletó, cota parlamentar generosa, passagens aéreas, equipe de gabinete bancada pelo contribuinte, foro privilegiado, e oito anos de mandato para um cargo cuja função original era frear os abusos do governo federal. Hoje serve, na maior parte do tempo, para carimbar.
O eleitor de São Paulo, o mesmo que paga o ICMS mais caro do país, o mesmo que sustenta com seu suor metade da arrecadação federal, é tratado a cada quatro anos como freguês de feira em fim de tarde. Recebe sorriso, abraço, foto com a criança no colo, promessa de combate à corrupção feita por gente que conhece corrupção desde dentro. E na segunda-feira seguinte ao pleito o eleito desaparece em Brasília, onde os interesses verdadeiros começam a falar. Quem paga a campanha, paga o mandato. Esta é a regra que os manuais de civismo não imprimem.
Olhe para a estrutura do Senado e o desenho fica nítido. Três representantes por estado, mandato de oito anos, prerrogativa de aprovar ministros, embaixadores, ministros de tribunais superiores, presidentes de banco central, empréstimos externos, e julgar autoridades em casos de impedimento. É a casa que mais concentra poder por cabeça no Ocidente, e é justamente a que recebe menos escrutínio popular, porque o eleitor médio nem sabe direito o que um senador faz. Sabe, isso sim, que o homem aparece de quatro em quatro anos pedindo voto e some pelos outros sete anos e meio.
A pesquisa em si é o de menos. Pesquisa eleitoral nesta altura serve menos para informar o público e mais para orientar doadores. O empresário que precisa de licença ambiental, o banqueiro que quer relator amistoso, o empreiteiro que sonha com aditivo contratual, o sindicalista que negocia cargo, todos leem essas tabelas como o investidor lê balanço trimestral. Quem está em alta recebe mais cheque, quem está em baixa baixa o preço da promessa. O voto popular entra como verniz democrático sobre um leilão que já está em pleno andamento desde antes da convenção partidária.
A pergunta que nenhum desses sete nomes vai responder em entrevista é simples e dispensa sofisticação. Que regulação você vai criar, e em troca de quê? Que despesa você vai votar, e quem vai faturar com ela? Que privilégio do funcionalismo você vai defender, e por que justamente esse? O silogismo é elementar. Todo político depende de quem o financia. Estes sete dependem de financiadores específicos. Logo, votarão conforme estes financiadores, e não conforme o discurso de palanque que enganou o eleitor com idealismo barato.
O paulista que entrar na cabine no primeiro domingo de outubro precisa lembrar de uma coisa antes de apertar a tecla. Não está escolhendo um servidor. Está confirmando, com seu carimbo, o nome de quem vai ter acesso privilegiado ao seu bolso pelos próximos oito anos. A democracia representativa é exatamente isto quando se retira a maquiagem cívica. Resta saber se desta vez o freguês compra o mesmo peixe estragado, ou se finalmente cheira antes de pagar.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.