O instituto Paraná Pesquisas divulgou nesta quarta-feira um levantamento com quatro cenários para a disputa pelo Senado no Acre, margem de erro de 3,2 pontos percentuais, empate técnico na liderança da primeira simulação. Está aí a manchete que vai circular pelos grupos de WhatsApp do Juruá ao Alto Acre, recortada, replicada, transformada em verdade revelada pela liturgia do número. Pesquisa eleitoral virou sacramento da política brasileira, e como todo sacramento, exige que o fiel não pergunte de onde vem a hóstia.

Convém lembrar uma trivialidade que a imprensa sistematicamente esquece de mencionar: pesquisa eleitoral custa caro, ninguém faz por caridade, e nenhum instituto sério vai a campo a esmo num estado de 900 mil habitantes só para alimentar o noticiário da quarta-feira. Há contratante, há cheque, há objetivo. O nome do pagador raramente aparece no release, mas o resultado aparece em letras garrafais. É a velha alquimia da política nacional, transformar a encomenda paga em fato jornalístico, o palpite metodológico em oráculo, o interesse privado em informação pública. Quem paga a banda escolhe a música, e quem paga a pesquisa escolhe quais nomes entram no questionário, em que ordem, com que estímulos.

O silogismo é constrangedor de tão simples. Toda pesquisa divulgada custou dinheiro a alguém. Quem gasta dinheiro espera retorno. Logo, toda pesquisa divulgada serve a um retorno esperado. Não se trata de teoria da conspiração, trata-se de aritmética básica, daquela que se aprende contando feijão antes da escola obrigatória. O candidato que aparece em primeiro lugar na simulação ganha aquele empurrãozinho psicológico que move o eleitor indeciso, o doador que estava em cima do muro, o cacique partidário que precisa decidir onde apostar a ficha. A pesquisa não mede a eleição, fabrica a eleição. É a profecia que se autorrealiza vestida de ciência.

E observe a coreografia. O Acre, esse estado periférico que a República só lembra quando precisa de mão estendida ou de pedido de socorro federal, recebe a primeira fotografia eleitoral com mais de um ano de antecedência. Não é zelo democrático, é posicionamento de tabuleiro. Quem controla a narrativa em junho controla as alianças em agosto, os palanques em outubro, as candidaturas em março do ano seguinte. O eleitor acreano, esse personagem invisível que paga a conta de toda essa engenharia através de impostos federais que financiam transferências, programas e a própria máquina que sustenta os caciques que encomendam pesquisas, vira figurante no próprio enredo. Aplaude o resultado que outros escreveram.

O mais cômico é a reverência com que se trata a margem de 3,2 pontos, como se a casa decimal compensasse a fragilidade epistemológica de perguntar a mil pessoas, num estado onde metade da população vive em municípios sem qualquer infraestrutura de pesquisa séria, em quem votariam para um cargo cuja eleição ocorrerá daqui a meses. É numerologia disfarçada de estatística, é tarô com planilha do Excel. E ainda assim, governos caem e sobem, candidatos desistem ou se animam, doações migram, manchetes se desenham, tudo a partir desse chá de folhas que a imprensa nacional engole como se fosse demonstração matemática.

A pergunta honesta, que nenhum repórter fará porque depende do mesmo balcão que vende a pesquisa, é antiga e simples: a quem aproveita? Quem ganha com este recorte, com estes nomes nesta ordem, com este empate técnico, com esta divulgação justamente nesta quarta-feira? Responda essa pergunta e você terá entendido mais da política acreana do que entenderá lendo cem notícias sobre as quatro simulações divulgadas hoje. O resto é cerimônia. O resto é o tapete vermelho que se estende para que o eleitor, devidamente intimidado pela autoridade do número, caminhe até a urna com a sensação de estar exercendo escolha onde já lhe foi entregue um cardápio fechado.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.