A cena tem algo de anacrônico e, por isso mesmo, reveladora. Uma pesquisadora embarca sozinha, atravessa o oceano, planta a barraca numa ilha esquecida do arquipélago filipino e passa um ano inteiro com o joelho na lama, observando sapos. O resultado é um catálogo de táticas reprodutivas que beira o surreal, com anfíbios que depositam ovos em bromélias suspensas, machos que carregam a prole nas costas, fêmeas que escolhem poças efêmeras porque ali o peixe predador não chega. Enquanto isso, aqui embaixo, uma legião de servidores com crachá, ar-condicionado e diária de viagem produz relatórios em PDF sobre a importância de se preservar aquilo que nunca viram de perto.
A história natural séria, aquela dos séculos XVIII e XIX, foi erguida por indivíduos que gastavam o próprio bolso, o próprio fígado e, com frequência, a própria vida. Não havia ministério da ciência, não havia agência de fomento, não havia grupo de trabalho multidisciplinar. Havia curiosidade, rigor e coragem, três virtudes que nenhum orçamento público jamais conseguiu imitar. O sujeito descia o rio num bote furado, catalogava mil espécies, voltava com malária e publicava à própria custa. Hoje, para financiar uma expedição de meia dúzia de semanas, monta-se um edital, forma-se uma comissão, contrata-se uma consultoria, e o pesquisador real recebe as migalhas depois que o aparato digeriu o grosso.
Vale a pena fazer a pergunta elementar, aquela que o cidadão polido evita por timidez. Quem paga essa festa e quem recebe? Paga o trabalhador que nunca verá um sapo filipino, que acha bromélia coisa de decoração de casamento, e que entrega quarenta por cento do salário para sustentar a estrutura. Recebe o circuito fechado de universidades cativas, ONGs conveniadas, fundações estrangeiras com endereço em Genebra e burocratas de terceiro escalão que transformam a biodiversidade em commodity retórica. O sapo, coitado, continua na bromélia, alheio ao esquema, cumprindo o seu programa genético com uma eficiência que envergonharia qualquer planejador.
O ponto filosófico é incômodo, e por isso convém dizê-lo sem pudor. A natureza resolve problemas extraordinariamente complexos sem comitê gestor, sem reunião de alinhamento, sem plano plurianual. A rã que cria a prole numa fenda de bambu não consultou especialista, não submeteu projeto, não aguardou aprovação. Ela simplesmente faz. A ordem espontânea, aquela que emerge de bilhões de tentativas e erros ao longo de milhões de anos, produz arranjos que nenhum cérebro central jamais teria a humildade ou a paciência de conceber. É a velha lição que o homem civilizado insiste em esquecer toda vez que acredita poder desenhar, da mesa do gabinete, o destino dos outros.
Há ainda o detalhe da vulnerabilidade, manipulado com maestria pela indústria do pânico ambiental. Sim, anfíbios são sensíveis, somem com desmatamento, com pesticida, com alteração climática. Mas note quem aparece como salvador na fotografia. Nunca é o camponês local que convive com o bicho há dez gerações, nunca é o pesquisador solitário de joelho na lama. É sempre o aparato internacional de governança, com suas metas, seus selos, suas certificações, seus mecanismos de controle territorial disfarçados de proteção ecológica. O sapo vira pretexto, a floresta vira ativo regulatório, e o camponês vira suspeito. Velha fórmula, nova embalagem.
Ficam duas imagens contrastantes para o leitor guardar. De um lado, uma mulher numa ilha, durante um ano, caderneta na mão, lanterna na testa, anotando pacientemente o milagre cotidiano. Do outro, salas acarpetadas, slides coloridos, coffee break, diárias internacionais, e relatórios que ninguém lê mas todos assinam. A primeira produz conhecimento. A segunda produz folha de pagamento. E, no fim do mês, quem paga a conta das duas é exatamente o mesmo sujeito, aquele que nunca pisou na ilha e nunca verá o sapo, mas cujo bolso é o único bioma verdadeiramente explorado sem dó nesta história toda.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.