O menino era tão lento que a mãe foi chamada na escola e ouviu a sentença solene do mestre: este aqui não chegará a lugar nenhum. O nome do garoto era Thomas Edison. O outro, taciturno e atrasado na fala, foi classificado pelos professores como possivelmente deficiente; chamava-se Albert Einstein. Há ainda o caso do rapaz expulso por inadequação intelectual que mais tarde revolucionaria a física com seus diagramas, e do menino reprovado em desenho que pintaria a Capela Sistina do impressionismo. A lista é longa, constrangedora, e tem uma moral que ninguém quer ouvir: o cartório oficial da inteligência erra. Erra grosso. Erra sempre. E ainda assim continua aberto, cobrando taxa de entrada, com fila de pais aflitos na porta esperando o carimbo que dirá se a criança serve ou não serve.

O truque é antigo e a engrenagem é simples. Inventa-se um teste, dá-se a ele aparência de ciência com gráficos e desvios-padrão, contrata-se uma legião de especialistas credenciados para aplicá-lo, e pronto: nasce uma casta. Essa casta passa a decidir quem entra na escola boa, quem recebe o diagnóstico, quem ganha a bolsa, quem leva o rótulo de superdotado e quem leva o de incapaz. Note a beleza do arranjo para quem está dentro dele. O psicometrista vende a consulta. A clínica vende o laudo. A escola vende a sala especial. A farmacêutica vende a tarja preta. O Ministério vende o programa. E, ao final, o pai assustado paga a conta inteira convencido de que comprou ciência, quando na verdade comprou liturgia. A pergunta que nunca aparece no folheto é simples: quem se beneficia de transformar o desenvolvimento de uma criança numa transação permanente?

Há um detalhe lógico que desmonta a farsa de uma vez. Se o instrumento de medida classificou como retardados meninos que vieram a reorganizar a física, a química, a pintura e a música do mundo, então o instrumento não mede o que diz medir. É uma proposição elementar, daquelas que qualquer estudante de primeiro ano de filosofia entende: uma régua que erra repetidamente o tamanho da mesa não é régua, é adereço. Quem insiste em usá-la para cortar madeira ou está mentindo ou está vendendo serra. E o sistema escolar moderno, esse Leviatã que devora doze anos de cada vida humana, foi construído inteiro em cima dessa régua torta, premiando o aluno disciplinado que repete a cartilha e punindo o estranho que pensa diferente, ou seja, fazendo o oposto exato daquilo que produz civilização.

Convém lembrar de onde veio essa mania de classificar gente como gado. A escola pública obrigatória não nasceu na cabeça de algum filantropo iluminado preocupado com o pequeno camponês. Nasceu na Prússia do século dezenove, projetada por burocratas militares para produzir soldados obedientes, funcionários públicos pontuais e operários resignados. O QI, irmão gêmeo dessa empreitada, foi turbinado pelos eugenistas do início do século vinte, que precisavam de uma desculpa de jaleco branco para esterilizar pobres e barrar imigrantes nos portos. Esta é a árvore genealógica do teste que hoje aplicam no seu filho de sete anos. Ninguém conta isso na reunião de pais e mestres porque seria desagradável, e porque destruiria o produto.

O que esses gênios reprovados têm em comum não é uma curiosidade biográfica simpática, é uma denúncia. Eles provam, com a brutalidade dos fatos, que a inteligência verdadeira raramente cabe no formulário, porque o formulário é desenhado por quem precisa de gente que caiba. Curiosidade obsessiva, teimosia, capacidade de ficar três anos remoendo um problema que ninguém pediu para você resolver, coragem de enfrentar o consenso, gosto pelo silêncio, tolerância ao tédio produtivo, nada disso é mensurável por questão de múltipla escolha cronometrada. E é precisamente isso que constrói tudo o que vale a pena no mundo. O resto é decoreba premiada com diploma, um teatro de competência em que o ator que melhor imita o juiz ganha o papel principal.

A conclusão prática é desconfortável e por isso mesmo necessária. Cada pai que entrega o filho ao crivo do sistema sem reservas está terceirizando a coisa mais sua que existe, o julgamento sobre quem é aquela criança, para um corpo de funcionários que tem interesse financeiro e ideológico em encontrar problemas onde talvez só houvesse uma alma diferente. Vale repetir o mantra impopular: a escola não é neutra, o laudo não é ciência pura, o rótulo não é destino. O menino lento da história pode estar resolvendo, em silêncio na carteira do fundo, um problema que os avaliadores levarão meio século para entender que existia. Cabe aos adultos da casa proteger esse silêncio do diagnóstico apressado, porque quem ganha com o carimbo nunca é a criança carimbada, é o cartório.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.