Viktor Orbán perdeu. O Poder360 noticiou a derrota do líder húngaro para Péter Magyar encerrando dezesseis anos de um governo que soube misturar, com rara competência, a retórica soberanista com o intervencionismo econômico mais descarado , o tipo de combinação que Rothbard diagnosticaria num parágrafo: nacionalismo de fachada, capitalismo de compadres por dentro, Estado inchado nas costas do contribuinte. Orbán construiu um discurso de resistência ao globalismo enquanto distribuía contratos, concessões e monopólios regulatórios aos seus aliados com a generosidade de quem gasta dinheiro alheio , que é exatamente o que era. Ninguém que respeite a propriedade privada e a livre concorrência pode ter saudade disso. Esse ponto precisa ser dito com todas as letras antes de qualquer outra coisa, porque a armadilha intelectual da direita ingênua é defender o soberanista corrupto pelo simples fato de ele irritar Bruxelas. Irritar Bruxelas é necessário, mas não é suficiente para transformar um interventor em herói.

Dito isso , e aqui o Aristóteles entra com sua lógica implacável ,, o fato de Orbán ser indefensável não torna Magyar defensável. O silogismo é simples e a conclusão, inevitável: se a União Europeia e a OTAN comemoram publicamente e sem pudor a vitória de um candidato, esse candidato serve aos interesses da União Europeia e da OTAN. Não é paranoia, é geometria política. Tocqueville observou, com aquela frieza de cirurgião que os franceses às vezes conseguem, que o despotismo moderno não precisaria de tirano barulhento , bastaria uma tutela suave, um rebanho de homens tímidos e industriosos conduzidos por um poder imenso e paternal. Pois bem: Bruxelas é exatamente essa tutela, e Magyar é o pastor que ela acabou de contratar para o rebanho húngaro. A pergunta que os jornalistas não fazem , porque alguns jornalistas são financiados pelos mesmos que financiam certas oposições , é simples: de onde veio o dinheiro? Quais fundações, quais ONGs, quais redes de "sociedade civil" irrigaram a campanha do novo herói democrático? Bastiat nos ensinou a identificar o que não se vê; siga o dinheiro invisível e você encontrará o patrão real.

A Hungria de Orbán era uma anomalia irritante para o projeto supranacional europeu não porque Orbán fosse virtuoso , não era ,, mas porque se recusava a importar certas agendas culturais e a ceder fatias de soberania que Bruxelas considera suas por direito divino burocrático. O problema nunca foi a corrupção húngara: a corrupção é universal no continente e a União Europeia tem os seus próprios escândalos de auditoria não aprovada há décadas seguidas, algo que a imprensa mainstream menciona com a mesma frequência com que menciona o sol à meia-noite. O problema era a desobediência. São Tomás de Aquino distinguia a lei justa da lei injusta pela sua conformidade com a razão e com o bem comum; uma estrutura supranacional que pune Estados membros por defenderem suas fronteiras e sua cultura dificilmente passa nesse teste. Magyar, se confirmadas as expectativas de seus padrinhos, será o instrumento da reintegração disciplinada , o filho pródigo que volta para casa e entrega as chaves.

Existe uma ilusão recorrente na política ocidental , Voegelin a chamaria de pneumopatologia, a doença do espírito que confunde imanência com transcendência , que consiste em acreditar que a troca de um rosto resolve o problema estrutural. A Hungria não sofria de Viktor Orbán; sofria de um Estado hipertrofiado, de um sistema de concessões clientelistas, de uma imprensa subordinada ao poder e de uma sociedade civil atrofiada pela dependência governamental. Magyar não desmantelará nada disso , pela razão óbvia de que Bruxelas não tem nenhum interesse em Estados menores, mais magros e mais livres. O que Bruxelas quer é Estados domesticados, integrados à malha regulatória continental, abertos ao fluxo de capitais e agendas que emanam de Berlim, Paris e das sedes de fundações que ninguém elegeu. Mises foi preciso: o intervencionismo não tem ponto de equilíbrio estável , cada intervenção gera o problema que justifica a próxima. A pergunta é apenas quem controla o painel de controle.

Que fique registrado, então, para quando Magyar começar a governar e as primeiras decepções aparecerem , e elas aparecerão, porque sempre aparecem: a vitória sobre Orbán não foi uma vitória da liberdade húngara. Foi uma transferência de clientela. O povo húngaro trocou um patrão que fingia defender sua identidade por um patrão que nem fingerá. Chesterton dizia que a tradição é a democracia dos mortos , dar aos antepassados o direito de voto sobre o presente. A Hungria votou, mas o voto real foi dado em Bruxelas, em escritórios sem janela, por pessoas cujos nomes não constam em nenhuma cédula eleitoral. Isso não é democracia. É sua paródia sofisticada , e a diferença entre as duas, para quem não presta atenção, é praticamente imperceptível até o momento em que deixa de ser.