Odair Cunha, deputado federal pelo PT de Minas Gerais, foi eleito nesta terça-feira ministro do Tribunal de Contas da União. Releia a frase. Um parlamentar do partido que comanda o Executivo acaba de ser alçado ao órgão cuja razão de existir é, pelo menos no papel, fiscalizar o Executivo. Se a piada fosse inventada, seria rejeitada por inverossímil. Mas estamos no Brasil, onde a realidade há muito ultrapassou a capacidade criativa dos humoristas.

A articulação ficou por conta de Hugo Motta, presidente da Câmara, que conduziu o processo com o zelo de um mestre de cerimônias arrumando os lugares numa mesa de jantar onde todos os convidados já sabem quem come e quem serve. Motta, do Republicanos, apoiou um petista para o TCU. Não há nenhuma contradição nisso quando se entende que em Brasília não existem partidos, existem sócios. A legenda é apenas o crachá; o negócio é sempre o mesmo. A pergunta que o cidadão decente deveria fazer não é se Odair Cunha é competente, se é honesto, se tem currículo. A pergunta é outra, e é sempre a mesma: quem paga e quem recebe?

Quem paga é você, naturalmente. O salário de ministro do TCU ultrapassa os trezentos mil reais anuais, fora penduricalhos, auxílios, assessores e o séquito de mordomias que a República generosamente distribui a quem jura fiscalizá-la. Quem recebe é o arranjo. É o governo que ganha um aliado de confiança sentado exatamente na cadeira de onde deveria sair o voto contrário. O TCU já era, há tempos, uma repartição onde ex-políticos estacionam com salários de magnata e prestígio de desembargador; agora, com mais um nome saído diretamente do partido governista, nem a aparência de independência sobrevive. É como se o réu escolhesse o juiz e ainda mandasse o convite para a posse.

O mecanismo é velho, tão velho quanto a própria ideia de que o Estado pode fiscalizar a si mesmo. Quem acredita que um tribunal composto por indicações políticas vai morder a mão que o alimenta precisa de um curso intensivo de história. O Senado Romano tinha suas magistraturas de controle; funcionaram até que os imperadores perceberam que bastava nomear os magistrados certos. A Coroa portuguesa tinha seu Erário Régio; funcionou até que os amigos do rei descobriram que era mais fácil sentar no tribunal do que responder a ele. O padrão se repete porque a natureza do poder não muda: quem controla o fiscalizador, controla a fiscalização. E quem controla a fiscalização, não tem mais o que temer.

O mais revelador, porém, não é a eleição em si, é o silêncio. Ninguém se espanta. Ninguém protesta. A imprensa registra o fato com a mesma temperatura emocional de quem anuncia a previsão do tempo. "Petista é eleito ministro do TCU", diz a manchete, como se dissesse "chove em Curitiba". E é justamente aí que o golpe se completa: quando a captura institucional vira rotina, quando o absurdo se torna paisagem, quando o contribuinte já nem levanta a sobrancelha ao descobrir que seu dinheiro financia o conforto vitalício de quem deveria protegê-lo do desperdício. O TCU custa caro. Custa muito caro. E a cada indicação política que ocupa suas cadeiras, custa um pouco mais em credibilidade e um pouco menos em fiscalização real. No fim, sobra a pergunta de sempre, que é também a resposta de sempre: quem paga é quem trabalha, quem recebe é quem governa. O resto é liturgia.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.