Há uma cena que se repete com a pontualidade de relógio suíço sempre que um governante de esquerda farejela derrota, o sujeito se antecipa, sobe na tribuna, e avisa ao mundo que não vai aceitar o resultado da eleição. É o que faz agora o presidente da Colômbia, que apadrinha Iván Cepeda no segundo turno contra Abelardo de la Espriella e, antes mesmo da apuração, decreta a sentença, se perdermos, foi fraude. Não há ineditismo no roteiro, há apenas o desplante de encená-lo com cara de indignado moral, como se a urna devesse obediência ao programa de governo do candidato oficial.
Repare na lógica torta que se vende como princípio democrático. Se o resultado favorece o palácio, a vontade popular é sagrada, vox populi, vox dei, e quem questionar é golpista, fascista, inimigo da pátria. Se o resultado contraria o palácio, a mesma vontade popular vira massa manipulada, vítima de fake news, instrumento da extrema direita internacional. A premissa muda conforme a conveniência, e a conclusão é sempre a mesma, o poder pertence a quem já está nele. Isso não é democracia, é uma fantasia de democracia vestida sobre o velho cadáver do caudilhismo latino americano, aquele mesmo que enterrou a Venezuela, sufocou a Nicarágua e transformou Cuba num museu de miséria com bandeira vermelha.
E quem paga a conta dessa encenação? O contribuinte colombiano, naturalmente, que financia com seus impostos a máquina de propaganda governamental, os cargos comissionados que sustentam a militância, os programas sociais convertidos em curral eleitoral, as estatais que viraram cabide de aliado. Quem recebe? A casta política que descobriu o segredo alquímico de transformar voto em vitalício, dinheiro alheio em palanque próprio, e dor de cabeça administrativa em desculpa para mais imposto. Cada vez que um presidente diz que não aceita o resultado, está confessando, sem perceber, que considera o cargo propriedade particular, herança de família ideológica, feudo pessoal. O Estado, para essa gente, não é serviço público, é butim.
De la Espriella não é nenhum santo, e o leitor faria bem em não confundir esta análise com endosso a ninguém. O ponto aqui é outro, é a brutalidade com que se naturaliza a chantagem institucional, a tranquilidade de quem ameaça o processo eleitoral antes mesmo do processo eleitoral acontecer. Imagine a inversão, um candidato de direita anuncia, na semana do segundo turno, que não reconhecerá derrota porque o sistema é viciado. As manchetes globais entrariam em colapso, embaixadas seriam acionadas, organismos internacionais convocariam reuniões de emergência. Quando vem do outro lado do tabuleiro, vira nuance, contexto, legítima preocupação democrática. A bitola muda conforme o passageiro, e o trem chama isso de neutralidade jornalística.
A verdade nua é simples, e cabe num silogismo que qualquer feirante entende. Quem ameaça desconhecer a urna antes da urna falar, não acredita na urna, acredita em si mesmo. Quem não acredita na urna, não acredita na democracia, acredita no próprio mandato perpétuo. Logo, quem fala em nome da democracia para subverter a democracia, está mentindo, e a mentira é o tributo que o vício paga à virtude. O resto é coreografia para câmera, indignação calculada, lágrima de jacaré servida com canapé em recepção diplomática. O eleitor, esse pobre coitado, fica com a conta, com a inflação resultante, com o controle de capitais que virá depois, com a fuga de empresas, com a degradação do peso. E ainda terá que aplaudir, sob pena de ser chamado de golpista por ter ousado preferir outro candidato.
Resta uma pergunta incômoda que ninguém em Bogotá quer fazer em voz alta, se o atual presidente acreditasse mesmo na vitória do seu apadrinhado, precisaria desse seguro retórico contra a derrota? A blindagem antecipada é a confissão indireta da fraqueza, o homem que sai de casa com guarda chuva no dia de sol claramente não confia na meteorologia. E quando o guarda chuva é uma narrativa de fraude preventiva, o que se está realmente protegendo não é a democracia, é o emprego de quem vive dela. No fim, o eleitor decide, e que ele decida lembrando que toda vez que um político trata o voto como obstáculo, é porque já transformou o cargo em propriedade pessoal. Quem paga continua sendo o de sempre, e quem recebe também.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.