Trinta milhões de dólares por hora. Esse é o ritmo com que o caixa das grandes petroleiras engorda enquanto jornalistas bem pagos explicam, em tom grave, que o conflito no Irã é uma infeliz consequência geopolítica. Até o fim do ano, se o barril continuar flertando com os cem dólares, a conta chega a duzentos e trinta e quatro bilhões em lucros extraordinários. Extraordinários é o adjetivo que usam quando a palavra correta seria pilhagem autorizada. Repita comigo devagar: duzentos e trinta e quatro bilhões. Isso não cai do céu, não brota da terra, não é recompensa por nenhum mérito industrial súbito. É extração direta do bolso de quem abastece o carro, de quem paga o frete da cesta básica, de quem acende o fogão para ferver arroz. A guerra lá, o aumento aqui.

Chamam de lucro extraordinário porque a palavra soa técnica, asséptica, quase contábil, como se fosse um fenômeno meteorológico. Mas o que torna o lucro extraordinário não é genialidade, não é inovação, não é novo poço descoberto, não é refinaria mais eficiente. É míssil. É drone. É embargo. É cadáver. O preço sobe porque a oferta treme, e a oferta treme porque alguém decidiu, em gabinete fechado, que era hora de reorganizar o tabuleiro. As mesmas empresas que financiam think tanks para explicar a importância de estabilizar regiões instáveis são as primeiras a embolsar o cheque quando a instabilidade, convenientemente, acontece. Coincidência é uma palavra que perdeu utilidade explicativa faz tempo.

O truque é antiquíssimo. Na Roma que agonizava, os generais ficavam ricos na exata proporção em que as fronteiras ardiam. Nas guerras religiosas da Europa, os banqueiros genoveses emprestavam para os dois lados e celebravam cada prolongamento do massacre com taças erguidas em palácios de mármore. A indústria de armas do século vinte cresceu cada vez que um estadista aparecia na televisão dizendo que a paz estava ameaçada. A regra nunca muda, só muda o figurino. Onde há cadáver, há fatura. Onde há fatura, há alguém que precisa que o cadáver continue aparecendo no jornal. E quem precisa tem dinheiro para contratar quem escreve o jornal, quem assessora o ministro, quem redige a declaração do porta voz do governo estrangeiro que vai justificar o próximo bombardeio.

Pergunta simples, daquelas que derrubam impérios inteiros quando formuladas em voz alta: se a gasolina custa o triplo por causa da guerra, e a petroleira fatura o triplo por causa da guerra, quem exatamente tem interesse em terminar a guerra? A resposta é você, que paga. A resposta não é o acionista, que recebe. O acionista faz lobby, contrata ex ministros como conselheiros, patrocina conferências de defesa, financia campanhas eleitorais nos dois hemisférios e depois se senta tranquilo para ver os dividendos pingarem. Você, enquanto isso, reclama do posto, aperta o orçamento, adia o plano de saúde e ouve no telejornal que a culpa é dos aiatolás. Dos aiatolás, entendeu? Nunca do cartel com terno italiano que escreve o comunicado trimestral em inglês impecável.

E a narrativa vem engordurada de moralismo, como sempre. Dizem que o mundo precisa de segurança energética, que a ordem internacional baseada em regras exige firmeza, que defender valores civilizacionais tem custo. Custo, é claro, a ser pago por terceiros. O soldado morre, o civil morre, o consumidor empobrece, o refugiado perambula, e a planilha fecha no azul. A civilização defendida é sempre a civilização do balanço patrimonial, nunca a do sujeito que enterra o filho. Chamam isso de realismo geopolítico. É um nome chique para um negócio muito velho e muito vulgar: uns morrem, outros cobram. A diferença é que agora cobram em dólar, com auditoria trimestral e relatório de sustentabilidade anexado, porque o cinismo contemporâneo exige que o lucro da guerra venha acompanhado de um selo verde.

Então fica a conta, simples, sem filigrana acadêmica. De um lado, famílias iranianas, israelenses, sírias, iemenitas, libanesas, todas reduzidas a estatística no rodapé da notícia. De outro, seis empresas que somam, por hora, o equivalente ao orçamento anual de muitos municípios brasileiros. No meio, o motorista de aplicativo calculando se ainda compensa trabalhar, a dona de casa trocando o azeite pelo óleo mais barato, o pequeno transportador vendendo o caminhão. A guerra é deles, a fatura é sua, o lucro é de um clube fechado com endereço em paraíso fiscal. Quem paga? Todo mundo que não está na lista de acionistas preferenciais. Quem recebe? Exatamente os mesmos de sempre, com nomes diferentes no crachá, mas o mesmo sorriso discreto no final do expediente.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.