O Brent recuou 4,82% e voltou aos US$ 95,38 na abertura da semana, simplesmente porque alguém em Washington e alguém em Teerã sinalizaram que talvez, quem sabe, eventualmente, conversem sobre o Estreito de Ormuz. Note bem o pulo do gato: não houve acordo, não houve assinatura, não houve sequer um aperto de mãos diante das câmeras. Houve expectativa de avanço. E essa palavra mágica, expectativa, derrubou cinco por cento do preço de uma commodity que move o planeta inteiro. Se um sussurro diplomático corta o barril em cinco dólares, é porque os outros vinte dólares acima dos cem nunca foram petróleo de verdade. Eram prêmio de medo, ágio do pânico, gorjeta paga ao teatro geopolítico.
Pergunte ao motorista de aplicativo que abasteceu na semana passada se ele vai receber de volta a diferença. Pergunte à dona de casa que pagou o gás aumentado, à transportadora que repassou o frete, ao supermercado que reajustou o arroz alegando custo logístico. Ninguém devolve nada. O preço sobe de elevador puxado por manchete e desce de escada quando ninguém está olhando. No meio do caminho, entre o elevador e a escada, mora gente que ganha muito dinheiro. Trading desks em Londres, fundos de hedge em Nova York, estatais petrolíferas que vendem o que está no subsolo a preço de guerra mesmo quando a guerra é só ensaio.
Vale lembrar como essa peça é encenada há décadas. Em 1973, bastou um embargo árabe para quadruplicar o preço do barril e fundar de uma vez por todas a indústria do susto energético. Daí em diante, toda vez que um general fala alto no Oriente Médio, o mundo paga pedágio. Toda vez que um diplomata pigarreia, o mundo recebe desconto. O ativo subjacente é o mesmo, o poço é o mesmo, o custo de extração mal se mexe. O que oscila é a narrativa, e a narrativa tem dono, tem patrocinador, tem beneficiário direto. Acompanhar o petróleo sem acompanhar a coreografia política é como tentar entender ópera olhando só para o sapato do tenor.
Existe ainda o capítulo doméstico da farsa, aquele em que governos do mundo inteiro aproveitam o sobe e desce para fazer caixa. Quando o barril sobe, repassam ao consumidor com pressa de adolescente apaixonado e culpam o cenário externo. Quando o barril cai, descobrem subitamente a virtude da prudência, alegam defasagens, política de preços, suavização de impacto. Traduzindo do economês para o português: o tributo embutido continua lá, a margem da estatal continua lá, o repasse demora a chegar à bomba e nunca chega inteiro. O cidadão paga a alta integral e recebe a baixa parcial. É confisco com perfume de planilha.
O detalhe mais saboroso é que o tal Estreito de Ormuz, gargalo por onde passa um terço do petróleo marítimo do planeta, transformou-se em pedágio cobrado por procuração. Não é o Irã que enriquece quando aquela passagem fica tensa. Quem enriquece é todo produtor que vende em outro lugar, é todo especulador posicionado, é todo governo que arrecada imposto ad valorem sobre combustível, porque imposto percentual sobe quando o preço sobe e o cofre engorda sozinho, sem precisar votar aumento, sem precisar pedir licença a ninguém. O contribuinte é ordenhado pela aritmética enquanto olha para o noticiário internacional achando que o vilão usa turbante.
Então convém manter a serenidade diante do alívio desta segunda-feira. Cinco por cento de queda não é vitória da paz, é confissão tardia de que o preço da semana anterior estava inflado por pura encenação. Amanhã, basta um drone caindo no lugar errado, uma declaração mal traduzida, um tuíte às três da manhã, e o barril volta aos cem, aos cento e dez, aos cento e vinte. E os mesmos analistas sérios, de gravata sóbria e voz grave, explicarão com cara de quem entende que se trata de fundamentos de mercado. Fundamentos coisa nenhuma. É mágica de palco, e o público continua pagando o ingresso sem perceber que faz parte do número.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.