A declaração saiu seca, quase como quem constata que o céu é azul: o mercado de energia não voltará ao normal mesmo depois que os mísseis pararem de voar. Ponto. Para quem acompanha o assunto sem os óculos cor de rosa da imprensa oficial, a novidade é nenhuma. A novidade é outra: alguém em posição de respeito técnico teve a coragem de dizer em voz alta que o chamado prêmio de risco geopolítico virou permanente, uma espécie de imposto invisível embutido em cada barril, cada quilo de frango, cada quilômetro rodado. E impostos invisíveis, como todo bom cobrador sabe, são os mais lucrativos.
Vale a pena parar e perguntar a pergunta que ninguém no noticiário faz: se o barril permanece volátil mesmo com o conflito apaziguado, a quem interessa manter o ambiente de tensão crônica? Siga a trilha do dinheiro e a fumaça dissipa. Produtores com custo de extração de quinze dólares vendendo a oitenta agradecem. Traders que vivem de volatilidade agradecem em dobro, porque ganham na subida e ganham na descida, desde que haja oscilação. Governos endividados, que precisam de inflação para diluir a dívida pública sem confessar ao eleitor, agradecem em coro. O barril caro é o melhor amigo do tesoureiro incompetente, porque permite atribuir à guerra alheia o preço que o próprio desgoverno fabricou em casa.
O argumento oficial soa quase infantil quando escrito com todas as letras: o preço sobe porque há guerra, o preço continuaria alto porque poderia haver guerra, e o preço nunca cai porque sempre existirá a possibilidade abstrata de alguma guerra em algum lugar do mapa. Percebeu o truque? Transformaram o medo em ativo precificável e venderam o medo no atacado. É a mesma lógica das indulgências vendidas no fim da Idade Média, quando a Igreja cobrava pelo perdão de pecados que ela mesma catalogava. Troque o pecado pelo risco, troque o indulto pelo hedge, e o modelo de negócio é idêntico. A diferença é que hoje o fiel paga na bomba em vez de pagar na sacristia.
Enquanto isso, aqui na colônia tropical, o consumidor brasileiro carrega três tributos sobre o mesmo litro: o da OPEP, o do dólar alto e o da carga tributária federal que responde por quase metade do preço final. Somem-se as tais contribuições para fundos sociais, os royalties que prometem escolas e entregam palácios, o frete encarecido por caminhoneiros que também pagam caro no diesel que usam para transportar o diesel alheio, e temos o perfeito esquema piramidal com roupagem de política energética. O cidadão entra na bomba achando que está comprando combustível e sai tendo financiado simultaneamente um xeque saudita, um trader em Londres e um deputado em Brasília. Raramente se viu tamanha eficiência em distribuir prejuízo.
A saída, se ainda existe alguma, não está em mais intervenção estatal nem em novos subsídios que simplesmente transferem o ônus de uns contribuintes para outros, criando a ilusão de alívio enquanto engordam a máquina que cobra. Está em reconhecer, sem romantismo, que combustível caro é sintoma de moeda fraca, de refinaria monopolizada, de regulação que protege o player estabelecido e inviabiliza o concorrente. Está em devolver ao mercado a função de precificar sem o megafone do medo manipulado. Enquanto isso não acontece, continuaremos reféns da narrativa conveniente de que o problema mora sempre do outro lado do oceano, nunca do outro lado da rampa do Planalto.
A pergunta, portanto, segue de pé e desconfortável: se o preço não cai com a paz, é porque a guerra nunca foi a causa principal, apenas o álibi mais fotogênico. Quem paga continua sendo o mesmo de sempre, aquele que empurra o carrinho no mercado e abre a carteira na bomba. Quem recebe também é o mesmo, e mora mais perto do que a gente gostaria de admitir.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.