O preço do petróleo não sobe no vácuo. Ele sobe porque alguém quer que suba, porque alguém apostou que ia subir, porque alguém tem a capacidade de criar as condições para que a aposta se realize. Quando a notícia diz que a Marinha norte-americana "se prepara para bloquear" o Estreito de Ormuz, o leitor comum vê geopolítica, tensão internacional, conflito em formação. O leitor atento vê outra coisa: um sinal de alta para os barris negociados em Chicago, em Londres e em Dubai. A diferença entre os dois leitores é a diferença entre quem paga a conta e quem a apresenta.
O Estreito de Ormuz tem vinte e um quilômetros no ponto mais estreito. Por esse corredor passam tankers carregados com óleo do Golfo Pérsico que abastecem a Europa, a Ásia e boa parte da América. Restringir esse fluxo, mesmo que parcialmente, mesmo que apenas como ameaça, é suficiente para disparar o alarme nos mercados de commodities. E disparado o alarme, o barril sobe. E subido o barril, as empresas de petróleo americanas, que amargaram margens apertadas durante os períodos de baixa, passam a respirar com muito mais conforto. As operações de shale no Texas e na Dakota do Norte, que são economicamente viáveis apenas acima de certos patamares de preço, ficam de repente muito mais rentáveis. É curioso como a política externa norte-americana tem esse talento singular de sempre encontrar, por caminhos tortuosos, o endereço das empresas que financiam campanhas eleitorais em Washington.
A justificativa oficial será, naturalmente, a segurança, a estabilidade regional, a proteção da liberdade de navegação. A retórica é sempre grandiosa quando o negócio é pequeno e sujo. Há algo de profundamente cômico em uma potência que anuncia o bloqueio de um estreito em nome da liberdade de navegação. O paradoxo lógico seria gritante se não fosse rotineiro: impede-se o trânsito para proteger o trânsito. Fecha-se o mar aberto para garantir o mar aberto. A contradição em termos não perturba ninguém porque a imprensa tratou de transformar a inconsistência em virtude, e a virtude em consenso, e o consenso em verdade que não se questiona.
Do outro lado da equação estão os que pagam. Primeiro, o consumidor iraniano, que verá sua já combalida economia sofrer mais um torniquete externo. Segundo, os países importadores de petróleo do hemisfério sul, que não têm petróleo próprio suficiente, que não têm moeda forte para absorver choques de preço, e que agora terão que repassar aos seus cidadãos o custo de uma disputa de poder que não é deles. O brasileiro que abastece o carro na quinta-feira próxima pagará, embutido no preço da gasolina, um pedaço da estratégia geopolítica de um governo a quem ele nunca votou e que jamais prestará conta a ele. Isso tem um nome técnico nos manuais de finanças internacionais. No vocabulário honesto, tem outro: confisco por procuração.
A anatomia desse arranjo é antiga. Toda vez que uma potência controla rotas comerciais estratégicas, o resultado prático é que ela passa a cobrar um pedágio invisível de todos os que dependem daquelas rotas. Não é necessário instalar uma cabine de cobrança. Basta manter frotas, exercer ameaças, agitar conflitos no momento certo, e observar o mercado fazer o trabalho sujo de transferir renda dos consumidores globais para os produtores favorecidos pela tensão. O Império Britânico fez isso no século XIX com o Canal de Suez e com as rotas da Índia. O resultado foi o mesmo: quem controlava o gargalo definia quem prosperava e quem pagava a prosperidade alheia. O cenário mudou de nome. A mecânica permaneceu intacta.
Então, quando o jornalista escreve "o petróleo supera cem dólares com tensão no Estreito de Ormuz", a notícia correta teria outra construção: alguém ficou muito mais rico nesta segunda-feira, e esse alguém não mora no Irã. A tensão não é uma força da natureza, como um furacão ou uma seca. É um produto manufaturado, com cadeia de produção, com beneficiários identificáveis, com custos que serão repartidos entre pessoas que nunca foram consultadas. O Estado, qualquer Estado, tem uma habilidade sobrenatural de socializar prejuízos e privatizar lucros. Quando ele faz isso com porta-aviões e contratos de energia, chama-se política externa. Quando um cidadão comum tenta algo remotamente parecido, chama-se crime.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.