A Repsol, gigante petrolífera espanhola, acaba de anunciar que retomou o "controle das operações" na Venezuela e que pretende aumentar a produção em 50%. A notícia vem embalada na linguagem asséptica dos comunicados corporativos, aquele idioma próprio em que nenhuma palavra significa o que parece significar. "Retomar o controle" é um eufemismo elegante para dizer que o regime de Nicolás Maduro, depois de anos estatizando, expropriando e destruindo tudo o que tocava, agora precisa de alguém competente para extrair o petróleo que ele sozinho não consegue mais tirar do chão. É a velha dança: o Estado quebra, e depois convida o capital privado para consertar o estrago, cobrando pedágio na entrada.
Convém lembrar o que é a Venezuela hoje. Um país que senta sobre as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta e que, ao mesmo tempo, tem cidadãos catando comida no lixo. Um regime que prendeu opositores, fraudou eleições, destruiu a moeda nacional até ela virar papel higiênico caro demais para a função, e empurrou mais de sete milhões de pessoas para o exílio. Esse é o sócio. Esse é o governo com quem a Repsol assina contrato, aperta mãos e tira foto. E ninguém na Europa civilizada pestaneja, porque quando o assunto é hidrocarboneto, a moral é solúvel em óleo cru. Sanções internacionais, aquelas mesmas que supostamente existiam para pressionar o regime, tornam-se curiosamente flexíveis quando uma empresa europeia fareja lucro. O padrão é conhecido: sanção de democracia é como dieta de segunda-feira, dura até aparecer o bolo.
Siga o dinheiro, porque ele nunca mente. A Repsol entra com capital e tecnologia. Maduro entra com licença para operar, que nada mais é do que a permissão de um governo ilegítimo sobre recursos que pertencem ao subsolo venezuelano, isto é, ao povo venezuelano, aquele mesmo que não foi consultado, que não vota de verdade e que não verá um centavo sequer desse aumento de produção. O petróleo sai, os dólares entram, e o circuito se fecha da maneira mais previsível possível: a receita financia a máquina de repressão que mantém o regime de pé. A Repsol produz, Maduro tributa, a casta militar consome, e o cidadão comum continua fazendo fila para comprar farinha. É um arranjo tão velho quanto a própria história dos impérios coloniais, só que agora vem com ESG no relatório anual.
O mais delicioso é a ginástica retórica da diplomacia espanhola e europeia. Os mesmos governos que fazem discursos inflamados sobre direitos humanos em fóruns internacionais são os que, nos bastidores, facilitam a entrada de suas empresas em regimes que pisoteiam exatamente esses direitos. Não há contradição nisso, se você entender que o discurso de direitos humanos nunca foi um princípio, sempre foi um instrumento. Serve para pressionar adversários geopolíticos, nunca para limitar os próprios negócios. A União Europeia fala de democracia na Venezuela com a mesma convicção com que um bêbado promete parar de beber: é sincero no momento em que diz, mas o bar está ali na esquina. O "aumento de 50% na produção" vai gerar dividendos para acionistas em Madri e receita tributária para o Palácio de Miraflores. Quem está no meio, o trabalhador venezuelano, fica com o privilégio de extrair petróleo por um salário que não compra um almoço.
A lição, para quem quiser enxergar, é simples e brutal: não existe regime tão autoritário que o capital corporativo, aliado ao Estado de origem, não consiga abraçar quando o preço está certo. A Repsol não está fazendo nada ilegal, e é precisamente aí que mora o escândalo. A legalidade foi talhada sob medida para permitir exatamente esse tipo de acordo. Sanções com furos, regulações com exceções, diplomacia com cláusulas de escape. O sistema funciona perfeitamente, só que não funciona para quem você imagina. Funciona para quem assina os contratos e para quem carimba as licenças. Para o venezuelano que fugiu para Bogotá, para Lima, para São Paulo, o anúncio da Repsol é apenas mais uma prova de que o petróleo do seu país serve para enriquecer todos, menos ele. Quem paga é sempre o mesmo, e quem recebe também.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.