A cena é quase cômica, se não fosse trágica para os milhares de poupadores que confiaram suas economias ao Banco Master. Daniel Vorcaro, o banqueiro que durante anos foi tratado como gênio das finanças por uma imprensa econômica preguiçosa, agora pode entrar na chamada difusão prateada da Interpol, instrumento criado justamente para rastrear bens e recursos de figuras suspeitas de fraudes bilionárias espalhados pelos quatro cantos do planeta. O homem que vendia segurança e rentabilidade acima do mercado, vejam só, despertou o interesse das polícias internacionais. Estranho como o mercado financeiro brasileiro tem essa mania peculiar de descobrir o óbvio sempre depois que o cofre já está vazio.

Convém lembrar como funciona a engenharia desses esquemas, porque ela se repete com a monotonia de uma fábula antiga. O banco oferece CDBs com taxas absurdamente acima da concorrência, atrai aplicadores sedentos por rendimento, infla artificialmente seu balanço com ativos podres, fundos opacos, créditos consignados duvidosos e participações em empresas que ninguém entende direito. Enquanto a música toca, os controladores se servem dos recursos como se fossem caixa pessoal, distribuindo dividendos a si mesmos, comprando jatos, mansões em Miami, lanchas em Mônaco. Quando a música para, sobra o quê? Sobra o pequeno investidor segurando um papel que vale o mesmo que carta de banco quebrado em 1929, e sobra o FGC, financiado por todos os outros bancos, que repassa o custo, evidentemente, para todos os clientes do sistema bancário. Quem paga? Você. Sempre você.

O detalhe delicioso da história é que essa farra só foi possível porque o aparato regulatório, vendido ao público como guardião zeloso da poupança popular, dormiu no ponto durante anos. O Banco Central tem dezenas de departamentos, milhares de servidores estáveis, salários polpudos pagos pelo contribuinte, e mesmo assim um banco médio conseguiu transformar suas demonstrações financeiras em ficção criativa por um período longuíssimo sob o olhar complacente da fiscalização. Quando o regulador chega, chega tarde. Quando o regulador age, age contra quem já fugiu. A regulação serve a quem mesmo? Não a você, certamente. Serve para criar barreiras de entrada que protegem os grandes incumbentes da concorrência, serve para empregar a burocracia que vive de fiscalizar, e serve, sobretudo, para dar ao público a falsa sensação de que alguém está cuidando do galinheiro enquanto a raposa faz o jantar.

Agora vem a parte ainda mais saborosa. Vorcaro presumivelmente não está em casa esperando o oficial de justiça tocar a campainha. Patrimônios desse calibre não evaporam, eles migram. Imóveis em jurisdições amigáveis, contas em paraísos fiscais, criptoativos pulverizados, participações societárias atrás de camadas e camadas de offshore registradas em ilhas cujo único produto de exportação é o sigilo bancário. A difusão prateada da Interpol é um instrumento útil, sem dúvida, mas convenhamos, perseguir dinheiro escondido por advogados especializados é o esporte mais caro e menos eficiente do planeta. A conta dessa caçada, claro, também recai sobre quem? Sobre o cidadão que nunca aplicou um centavo no Master, nunca jantou com banqueiro, nunca pisou em Mônaco, e que agora financia, via impostos, o teatro da recuperação de ativos que raramente se recuperam de verdade.

Há ainda um aspecto moral que precisa ser dito com todas as letras. Boa parte dos que aplicaram nesses CDBs mirabolantes sabia que algo estava fora do lugar. Quando alguém oferece taxa muito acima da concorrência, há duas hipóteses possíveis: ou achou uma maneira nova de criar valor que ninguém mais conhece, hipótese pouquíssimo provável num mercado tão monitorado, ou está pagando os juros antigos com os depósitos novos, hipótese que se chama pirâmide desde a Holanda das tulipas. Ganância privada encontrou ganância pública, regulação omissa encontrou aplicador displicente, e o resultado foi a tempestade perfeita que sempre termina do mesmo jeito. O banqueiro pega o avião, o contribuinte pega a fatura, a imprensa econômica que ontem celebrava o gênio hoje publica matérias indignadas como se descobrisse o pólvora.

No fim das contas, o caso Vorcaro é menos uma anomalia e mais um sintoma. Sintoma de um sistema financeiro construído sobre a premissa de que os lucros são privatizados e os prejuízos socializados, sintoma de uma cultura regulatória que confunde fiscalização com burocracia, sintoma de uma sociedade que ainda acredita em milagres financeiros e em promessas de político. A Interpol vai correr atrás do dinheiro, talvez recupere migalhas, e daqui a três ou quatro anos surgirá outro Vorcaro, com outro banco, oferecendo outras taxas mirabolantes, e tudo recomeçará exatamente do zero. Quem paga essa roda viva? Quem sempre pagou. Quem recebe? Quem sempre recebeu. O resto é folclore.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.