Há descobertas que dispensam comentário porque já se comentam sozinhas, e a tal "Operação Compliance Zero" entregou uma dessas pérolas que merecem ser lidas em voz alta para que o absurdo se sustente no ar: um ex banqueiro pagando bônus de final de ano a um grupo de milicianos chamado, com a desfaçatez de quem não teme mais nada, de "A Turma". O nome já é uma confissão. Não se trata de associação criminosa, não se trata de facção, não se trata de organização armada; trata se de "A Turma", como se fossem colegas de escritório dividindo a pizza da sexta. E talvez fossem exatamente isso, porque pizza, no Brasil, é o destino natural de quase tudo que se descobre sobre o trânsito entre o dinheiro grande e o crime grande.

Repare na elegância do arranjo. O bônus de final de ano é a instituição mais doméstica do capitalismo brasileiro, aquela gratificação que o trabalhador honesto espera o ano inteiro para pagar o cartão estourado em dezembro. Tomar essa figura e aplicá la ao pagamento de milicianos é uma operação semântica de gênio criminoso: transforma o pagamento de soldados de uma estrutura paralela em despesa rotineira de pessoa jurídica, como se quem aperta o gatilho fosse funcionário CLT com direito a décimo terceiro. A linguagem corporativa serve para isso, para anestesiar. Chame de "compliance" o que é cumplicidade, chame de "consultoria" o que é propina, chame de "bônus" o que é soldo de tropa irregular, e pronto, está naturalizado.

Quem paga e quem recebe? Esta é a única pergunta honesta diante de qualquer escândalo financeiro, e raramente alguém quer ouvir a resposta inteira. Paga, no fim da fila, o correntista comum, o pequeno poupador, o contribuinte que sustenta o sistema bancário através de tarifas, juros e socorros públicos quando o castelo de areia desaba. Recebe quem está dentro do clube, e o clube, descobrimos mais uma vez, não tem porteiro para distinguir o gerente de relacionamento do miliciano armado. O dinheiro circula em silêncio entre a sala envidraçada do banqueiro e a viela do operador de fuzil, e o que separa um do outro é apenas o gosto pelo terno italiano.

A história está cheia desses arranjos e quem fingir surpresa está mentindo. Os condottieri da Itália renascentista vendiam violência por encomenda às cidades estado e recebiam em ouro contado; nada de novo sob o sol, exceto que os condottieri ao menos tinham a dignidade de exibir armadura, e não se disfarçavam de departamento de recursos humanos. O fascinante do caso brasileiro é a covardia estética da coisa, a necessidade de maquiar o pagamento de capangas com vocabulário de departamento financeiro. É a banalidade do mal vestida de gestão de talentos.

E aqui a lógica fecha sozinha, sem precisar de muito esforço. Se o banco precisa de milícia, é porque o banco opera fora da lei. Se a milícia recebe bônus de fim de ano, é porque a milícia opera dentro do organograma. Logo, o organograma e o crime são a mesma coisa, apenas com salas diferentes no mesmo prédio. Não há terceira via, não há leitura caridosa, não há nuance possível. Quem contrata violência privada para proteger patrimônio acumulado em operações duvidosas não é vítima de circunstâncias; é o próprio centro do problema, e o resto é decoração.

Resta a pergunta que ninguém faz porque ninguém quer ouvir: por que um homem com tantos recursos precisaria de uma turma armada para garantir o que conquistou? A resposta é incômoda. Porque o que conquistou não foi conquistado, foi capturado, e tudo aquilo que se captura precisa ser defendido por gente disposta a matar, já que a lei, em algum momento, vai bater à porta. O bônus de dezembro é o preço da insônia do patrão. E volto à pergunta inicial, porque ela é a única que importa: quem paga, no fim, é sempre o mesmo otário de sempre, e quem recebe é sempre o mesmo clube de sempre. O resto é fumaça para o trouxa não enxergar a chama.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.