A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União anunciam, com aquele ar solene de quem acaba de descobrir a pólvora, mais uma fase de operação contra fraudes em aposentadorias e pensões do INSS. Traduzindo do jargão para o português dos vivos: o aparelho estatal que há décadas extrai compulsoriamente quase um terço do salário de cada trabalhador formal acaba de constatar, com sincera surpresa, que parte considerável desse butim some pelo ralo antes mesmo de chegar ao velhinho que passou cinquenta anos descontando contracheque. O STF autorizou. As ordens estão expedidas. Os culpados serão identificados. E o cidadão, esse otário crônico, deve aplaudir de pé a eficiência do sistema que primeiro o rouba à luz do dia e depois finge indignação quando descobre que existem subladrões pegando carona no roubo principal.
Convém perguntar, antes de qualquer coisa, quem paga essa festa e quem recebe os holerites. Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã, paga a doméstica registrada, paga o pedreiro autônomo que recolhe carnê azul na esperança de um dia ver a cor do próprio dinheiro de volta. Recebem, na ponta legítima, os aposentados de verdade, sufocados por um teto que mal cobre remédio e supermercado. Recebem, na ponta criminosa que ora se denuncia, advogados associados, servidores cooptados, despachantes de plantão e laranjas devidamente arrebanhados em consultórios médicos de fundo de quintal. E recebem, na ponta mais discreta e mais cara de todas, os altos funcionários que administram o esquema legal, com salários, penduricalhos, auxílios e aposentadorias que fariam corar qualquer barão do Segundo Império.
A engenharia é antiga e funciona porque é desenhada para funcionar. Todo sistema de tamanho cavalar, opaco, monopolista e blindado contra concorrência produz parasitas com a mesma inevitabilidade com que poça d'água parada produz mosquito. Não é defeito, é característica. Quando um único guichê concentra trilhões de reais movimentados ao ano, sem cliente real para fiscalizar porque o cliente é forçado a comprar o serviço sob pena de prisão, o resultado lógico não é eficiência nem honestidade: é exatamente o festival de fraudes que agora se finge combater. As coisas são o que são. Um monopólio coercitivo gerido por burocratas vitalícios não vira virtuoso porque sai uma operação fotogênica na quinta-feira.
E aqui entra o detalhe que ninguém quer enxergar, porque enxergar dói. As operações vêm, as operações vão, os ministros se revezam nas coletivas com aquela cara de quem está prestes a salvar a república, e o esquema continua exatamente do mesmo tamanho na semana seguinte, porque o que está sendo combatido não é o sistema, é apenas a fatia de bandidos que esqueceu de pagar pedágio aos bandidos certos. É a velha briga entre piratas pelo saque do galeão. Quem manda no galeão segue mandando. Quem é obrigado a remar segue remando. E o espectador, com pipoca na mão, aplaude a captura de meia dúzia de marujos e acha que assistiu à justiça em movimento.
Há ainda o detalhe estético da coisa, que merece registro. A mesma máquina que perde bilhões para fraudadores internos, que paga benefícios a defuntos décadas após o óbito, que aposenta servidores aos cinquenta com proventos integrais e pensão herdável, vem ao público pedir reformas, aumentos de alíquota, postergação de idade mínima e mais sacrifício do trabalhador da iniciativa privada. É como o sujeito que furou o próprio cofre, gastou tudo em cavalo na Gávea e volta para casa pedindo à esposa que aperte mais o orçamento doméstico porque a vida está difícil. Difícil para quem, exatamente? Os números da Receita não mentem, e os contracheques do alto escalão tampouco.
Ao fim da próxima coletiva, quando os holofotes se apagarem e os repórteres correrem para o próximo escândalo programado, o trabalhador continuará entregando seu pedaço todo mês, o aposentado continuará esperando perícia, o fraudador médio será trocado por outro fraudador médio, e o sistema, esse sim intocável, continuará cobrando ingresso para o espetáculo de combatê-lo. Quem paga? Você. Quem recebe? Eles. Toda a engenharia retórica das próximas semanas existe para que essa equação não seja jamais formulada nesses termos. Está formulada.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.