Um piloto da Polícia Civil morto com tiro de fuzil na cabeça durante operação na zona oeste do Rio. Pare aqui, respire, e olhe a frase de novo. Fuzil. Na cabeça. De um agente que pilotava helicóptero da corporação. Não foi pedrada de moleque, não foi bala perdida de revólver enferrujado, foi armamento de guerra disparado por um exército paralelo que opera, recruta, treina e se arma há décadas dentro de territórios oficialmente brasileiros, oficialmente sob a jurisdição daquele ente que cobra imposto sob a promessa de garantir a sua vida. Garantiu a de Felipe Marques? Garantiu coisa nenhuma.

A pergunta que ninguém na imprensa palaciana faz é a mais óbvia do mundo, e por isso mesmo é proibida: de onde vem o fuzil? Fuzil não nasce em pé de manga na Vila Aliança. Fuzil é manufaturado, registrado, vendido, transportado, contrabandeado, distribuído. Cada etapa dessa cadeia envolve servidor público recebendo salário pago por você. Aduana, Receita, polícia de fronteira, inteligência militar, Forças Armadas, Itamaraty. Toda essa estrutura monstruosa, sustentada por confisco tributário que come metade da sua vida produtiva, é incapaz de impedir que uma favela carioca tenha poder de fogo superior ao de muitos batalhões regulares da América Latina. Incapaz ou desinteressada? A diferença, no fim, é semântica.

O silogismo é brutal e qualquer estudante de lógica do primeiro semestre monta sozinho. Premissa maior: o monopólio da força existe para proteger a vida e a propriedade dos contribuintes. Premissa menor: o monopolista falha sistematicamente em proteger até os próprios agentes armados, treinados e voando de helicóptero. Conclusão: ou o monopólio é uma farsa, ou serve a outra finalidade que não a anunciada. Não há terceira via. E quem viveu a última década no Rio sabe que a finalidade real do arranjo é alimentar uma indústria de guerra urbana eterna, com orçamentos crescentes, cargos vitalícios, contratos de blindagem, fornecedores fardados e cúpulas que jamais entram no beco onde o tiro acontece.

Repare na coreografia. Toda vez que um agente morre, sai a nota oficial lamentando, sai a promessa de operação ainda maior, sai o pedido de mais verba, mais efetivo, mais fuzil, mais helicóptero, mais blindado. O traficante morto vira estatística, o policial morto vira mártir e justificativa, e o cidadão pagador da conta vira plateia de um teatro que se repete há quarenta anos com elenco rotativo e roteiro idêntico. Roma tinha seus circos para distrair a plebe enquanto o tesouro se esvaziava nas mãos de pretorianos e fornecedores. O Rio tem o noticiário das seis, e o efeito é o mesmo. Pão é caro, circo é farto.

E aqui chega a parte que os bem comportados não querem ouvir. O cidadão do bairro popular, desarmado por lei, é o único personagem dessa tragédia que não pode reagir. O bandido tem fuzil, o policial tem fuzil, o miliciano tem fuzil, o político tem segurança particular paga com dinheiro público. Só o trabalhador honesto que ergueu três cômodos com salário de pedreiro está proibido, sob pena de processo, de ter uma pistola para defender a filha. Esse é o desenho. Não é falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi projetado para funcionar, porque cidadão armado não precisa de tutor, e tutor sem tutelado fica desempregado. Felipe Marques pagou com a cabeça uma conta que vinha sendo postergada há gerações por uma classe política que prefere o problema ao seu desfecho, porque do problema se extrai voto, verba e poder.

Na segunda-feira haverá minuto de silêncio, bandeira a meio mastro, declaração compungida do governador, e na terça já estará tudo igual. Os mesmos fuzis continuarão entrando, os mesmos territórios continuarão liberados, o mesmo orçamento continuará sendo aprovado, e a viúva do piloto receberá uma pensão calculada por algum burocrata que jamais saberá pronunciar Vila Aliança. Quem paga essa conta toda? Você. Quem recebe? Todo mundo, menos o piloto.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.