Um avião despenca na Bolívia carregando o equivalente a milhões de dólares em cédulas de boliviano, vinte pessoas morrem, e a primeira providência do Estado é prender os pilotos. Os pilotos, claro. Não o presidente do banco central, não o ministro da Fazenda, não o burocrata que assinou a ordem de transportar caminhões de papel pintado por via aérea como se fosse heroína colombiana nos anos oitenta. Os pilotos. Aqueles que tinham as duas mãos no manche enquanto a terceira mão, a invisível e gorda do governo, empurrava a aeronave abarrotada de inflação solidificada para dentro da cordilheira.

Pare e pense no quadro: por que diabos um país precisa fretar voos clandestinos cheios de dinheiro vivo entre suas próprias cidades? A resposta é desconfortável e por isso ninguém quer dizer em voz alta. Precisa porque a moeda local virou confete, porque o sistema bancário não consegue mais operar com transferências eletrônicas confiáveis, porque a escassez de dólares secou o oxigênio da economia formal e o regime resolveu o problema do jeito que regimes em colapso sempre resolvem, imprimindo mais papel e despachando em fuselagem como quem manda batata. Quando um governo precisa transportar a própria moeda em quantidades que fazem cair avião, ele já confessou a falência sem precisar de sentença judicial.

A trilha do dinheiro nesse caso é literal, e por isso mesmo cômica. Quem paga a impressão daquelas cédulas? O boliviano comum, no caixa do mercado, vendo o preço do pão dobrar a cada trimestre. Quem recebe? Os fornecedores estatais, os contratos emergenciais de logística, as empresas amigas que ganham o frete dourado para mover papel sem lastro de um cofre vazio para outro cofre vazio. O acidente apenas tornou visível o que já era estrutura: o Estado boliviano há anos voa em piloto automático rumo à própria montanha, e a única novidade é que dessa vez a metáfora ficou literal e deixou viúvas.

O relatório aponta falhas técnicas. Que escândalo. Aviões sobrecarregados, manutenção precária, rotas improvisadas para esconder o tamanho da operação monetária da população, e o documento oficial conclui, com a solenidade de uma criança descobrindo a chuva, que houve falha técnica. Falha técnica é o nome bonito que se dá ao resultado previsível de cadeias inteiras de decisões políticas tomadas por gente que nunca pagou pelos próprios erros. A causa raiz não está no motor, está no decreto. Não está na turbina, está na rotativa do banco central.

Premissa: toda moeda que precisa ser carregada em volume físico para funcionar já não funciona. Premissa menor: a Bolívia precisa carregar sua moeda em volume físico capaz de derrubar aeronave. Conclusão inevitável e dispensa diploma: o boliviano, enquanto dinheiro, está morto, e os vinte cadáveres da serra são apenas o aviso premonitório que acompanha todo cadáver monetário. O resto é teatro judicial para entreter o público enquanto o verdadeiro réu, o monopólio estatal de emissão, segue assinando expedientes no andar refrigerado.

Prendam os pilotos, então. Façam manchete, satisfaçam o povo, distribuam culpa entre os subalternos como sempre se fez desde que faraós descobriram a utilidade política do bode expiatório. Mas anotem o nome verdadeiro do criminoso, porque ele continuará operando, vestido de gravata, assinando portarias, recebendo aplausos em discursos sobre soberania monetária. O avião caiu por excesso de carga; o regime cai por excesso de mentira. A diferença é que o segundo demora mais, e o estrondo, quando vier, não cabe em nenhuma serra.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.