A notícia chega embalada em papel de presente: a Pinacoteca de São Paulo figura entre os cem museus mais visitados do mundo em 2025, conforme levantamento de uma publicação britânica especializada. Secretaria de Cultura radiante, governo estadual estufando o peito, colunista de suplemento cultural derretendo na cadeira. A pergunta que ninguém faz, porque fazê la é quase um crime de lesa refinamento, é a única que importa: quem pagou essa visitação toda e quem capitalizou o aplauso?
Um museu estatal não aparece em ranking internacional por obra do Espírito Santo. Aparece porque durante décadas uma montanha de dinheiro compulsoriamente extraído do paulista médio foi canalizada para manutenção de prédio, folha de pessoal, curadoria, climatização, segurança armada, acervo, restauro, marketing, exposição itinerante, catálogo bilíngue e coquetel de vernissage com vinho que o contribuinte nunca provou. O cidadão que pega metrô às seis da manhã para trabalhar em galpão sem ar condicionado subsidia, sem saber e sem ser consultado, o umidificador que protege a tela seiscentista que ele jamais verá. E quando a tela sobrevive ao verão, a Secretaria celebra como se tivesse pintado o quadro.
O truque é antigo e funciona como relógio suíço. Você confisca recursos de milhões, concentra num equipamento frequentado por uma fração ínfima da população, e depois exibe o resultado como prova de que o Estado é indispensável para a cultura. É a mesma lógica do nobre que mandava erguer catedral com dízimo de camponês e depois apontava para a abóbada dourada como evidência da própria grandeza. Ninguém perguntava ao camponês se ele preferia a catedral ou um arado melhor. Ninguém pergunta ao paulista se ele prefere uma Pinacoteca no ranking internacional ou uma consulta médica no mesmo ano.
E aí vem o argumento de sempre, servido em bandeja de prata retórica: mas é cultura, é patrimônio, é educação, é democratização do acesso. Democratização é palavra curiosa quando o acesso, na prática, se concentra no turista estrangeiro, no universitário da zona oeste e no casal que tira foto para o feed. O trabalhador da periferia, que deveria ser o grande beneficiário dessa bondade compulsória, entra na estatística como financiador involuntário, nunca como visitante efetivo. Democratização autêntica seria deixar o dinheiro no bolso dele e ver o que ele faria com a própria cultura, a própria festa, a própria escolha. Mas isso é liberdade, e liberdade não rende manchete elogiosa em jornal britânico.
Há ainda o detalhe delicioso de que ranking de museu visitado não mede qualidade, mede fluxo. Estação rodoviária também tem fluxo. Supermercado em véspera de feriado também. O que o levantamento atesta é que muita gente passou pelas catracas, nada mais. Transformar número de catraca em prova de excelência cultural é o tipo de salto lógico que só sobrevive porque o contribuinte não tem direito de voto sobre o orçamento linha a linha. Se tivesse, descobriríamos rapidamente quanto custa cada visitante do ranking, e a resposta talvez desanimasse o entusiasmo dos secretários.
No fim da conta, o que se celebra é um arranjo onde quem paga não escolhe, quem escolhe não paga, e quem aplaude não entende nem uma coisa nem outra. O prédio é bonito, as obras são genuinamente valiosas, a equipe trabalha com competência; nada disso está em disputa. O que está em disputa é a premissa de que o único caminho para preservar arte é enfiar a mão no bolso alheio, e depois fingir que o bolso alheio estava feliz em contribuir. O rei passeia nu pela galeria, e a plateia, sempre educada, elogia o corte do terno.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.