A notícia chega embrulhada em papel de presente sanitário: Shenzhen, a vitrine tecnológica do regime de Pequim, anuncia que vai reduzir a taxa de fumantes acima de quinze anos para menos de dezesseis por cento até 2030. O vocabulário é o de sempre, saúde pública, qualidade de vida, cidade-modelo. A realidade, despida da maquiagem, é mais simples e mais feia: o aparato que reconhece o monopólio sobre câmeras, crédito social, liberdade de locomoção e útero feminino agora também reivindica jurisdição sobre o que cada cidadão decide queimar entre os próprios dedos. O pulmão, antes propriedade do sujeito, foi reclassificado como ativo estatal sob gestão temporária do portador.

Convém lembrar quem está dando lição de bons hábitos. É o mesmo regime que mantém milhões em campos de reeducação, que entregou ao mundo um vírus envolto em silêncio diplomático, que esmaga manifestantes com tanques e depois explica que tanque era trator. Esse senhor moral, agora, preocupa-se com a tosse do operário. A solicitude é comovente, quase lacrimosa, e só não engana quem se recorda da regra básica de qualquer fábula: quando o lobo recomenda dieta, é porque ele já calculou o peso ideal do cordeiro para o jantar.

Siga o dinheiro e o teatro se ilumina. A China é o maior produtor e o maior consumidor de cigarro do planeta, e o monopólio estatal do tabaco, a famigerada China Tobacco, despeja nos cofres do partido algo em torno de um décimo de toda a arrecadação do governo central. Ou seja, o mesmo Estado que agora finge campanha antitabagista é o vendedor exclusivo do produto, o cobrador do imposto, o dono da fábrica e o herdeiro do caixão. A meta de Shenzhen não ataca o negócio, ataca o estilo. Reduz o fumante visível, preserva o consumidor cativo, e ainda fatura a aura de potência sanitária diante da imprensa ocidental, que engole reportagens chinesas com a mesma fome com que engolia comunicados soviéticos sobre safras recordes de trigo.

Há aqui uma lógica que se desmonta com uma régua de feira. Se fumar é tão letal a ponto de justificar coerção estatal, por que o Estado, único vendedor, não fecha as próprias fábricas amanhã? A resposta não cabe em discurso, cabe em planilha. Porque o cigarro paga a propaganda, paga o exército, paga o aparato de vigilância que decide qual cidadão pode pegar trem em qual província. O fumante é simultaneamente vítima oficial e financiador involuntário do mecanismo que vai puni-lo. É a perfeição barroca da tirania moderna, te vende o veneno, te tributa o veneno, te multa pelo veneno e ainda exige gratidão pela cruzada contra o veneno.

O ensaio chinês interessa porque é piloto, não exceção. Toda capital ocidental observa Shenzhen como o americano dos anos 1920 observava Moscou, com mistura de horror e inveja administrativa. Maços com fotos cada vez mais grotescas, impostos cada vez mais confiscatórios, áreas livres do fumo que avançam do bar para a calçada, da calçada para o carro, do carro para o apartamento, sempre em nome da criança imaginária que respira do outro lado da parede. O método é uniforme: começa pelo vício mais antipático, treina a população a aceitar a tutela, e depois aplica o mesmo molde ao açúcar, à carne vermelha, ao automóvel a combustão, à lareira, à frase mal pronunciada na rede social. Quem aplaudiu a primeira proibição não terá moral para reclamar da décima.

A questão de fundo nunca foi se fumar faz bem, qualquer pessoa com olfato sabe que não faz. A questão é quem decide, e à custa de quem. Adulto livre, informado dos riscos, gastando o próprio dinheiro com o próprio pulmão, é o último território onde a palavra propriedade ainda significa alguma coisa. Quando esse território cai, cai junto a premissa de que o cidadão é dono de si. Resta o súdito, com pulmão arrendado, salário arrendado, opinião arrendada, e um burocrata de jaleco lembrando, sorridente, que tudo isso é para o seu próprio bem. Shenzhen não está combatendo o cigarro. Está testando até onde vai o fôlego de quem ainda acredita que mandar no próprio corpo é direito, e não concessão revogável.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.