A cena é digna de comédia, se não fosse trágica. O ministro da Fazenda, aquele mesmo que jura de pés juntos que o Pix é a oitava maravilha do mundo moderno, vai ao jornal e confessa, com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo, que a ferramenta de pagamento que processa metade da vida econômica do brasileiro pode entrar na mira de sanções americanas. Motivo? Washington resolveu carimbar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, e qualquer banco, fintech ou trilho financeiro que toque, ainda que por descuido, dinheiro dessas facções vira alvo legítimo do Tesouro americano. O governo que vendeu o Pix como soberania nacional descobre, da pior maneira, que soberania de aluguel tem prazo de validade.

Vale parar e perguntar o óbvio, aquela pergunta que ninguém em Brasília gosta de ouvir: quem ganhou com a centralização forçada dos pagamentos num único sistema operado pelo Banco Central? Ganhou o Estado, que agora vê, rastreia, cataloga e cruza cada centavo que muda de mão neste país. Ganharam os grandes bancos, que terceirizaram o custo de infraestrutura para o contribuinte e cobram tarifas crescentes do lado empresarial. Ganharam os burocratas, que multiplicaram cargos, comitês e relatórios. E quem pagou? O cidadão comum, que trocou o anonimato relativo do dinheiro vivo por um rastro digital permanente, vendido sob a embalagem brilhante de modernidade e gratuidade. Nada é de graça. O preço estava no rodapé, em letra miúda, e agora chega a conta.

A lógica é cruel e elementar. Se você empurra a população inteira para um único cano, basta uma torneira lá em cima para deixar o país no escuro. Sistemas redundantes, descentralizados, com múltiplos prestadores privados competindo, distribuem risco. Sistema único, estatal, monopolizado, concentra risco. Era previsível, foi previsto, e foi ignorado porque a tentação de controle total foi mais sedutora do que a prudência. Agora o ministro aparece nas páginas econômicas pedindo compreensão, como o piromaníaco que liga para os bombeiros e reclama do calor.

O lavajatismo financeiro internacional não é novidade para quem acompanha o noticiário. Quem operou com Irã, Venezuela, Cuba e Rússia sentiu na pele o que significa contrariar o departamento que carimba sanções em Washington. Bancos europeus pagaram bilhões em multas, executivos foram processados, sistemas inteiros foram banidos do dólar com uma canetada. O Brasil, pacato e provinciano, achou que estava acima dessa lógica porque tem samba, futebol e relação cordial. Achou errado. A regra do imperador é simples: quem toca o dinheiro do inimigo do imperador vira inimigo também. E nossas instituições, agora obrigadas por lei a passar tudo pelo Pix, viraram potenciais cúmplices automáticos de qualquer transação suspeita que escorrer pelo sistema.

O detalhe deliciosamente revelador é que a mesma elite política que passa o ano denunciando a interferência estrangeira na Amazônia, no Judiciário e nas eleições, descobre subitamente que precisa rezar para que o governo americano tenha boa vontade com o sistema bancário tupiniquim. A retórica nacionalista evapora no exato segundo em que o cheque pode ser bloqueado. Soberania, ao que parece, é conceito para discurso de palanque, não para sala de reunião com o Tesouro estrangeiro. E a culpa, claro, será de qualquer um menos de quem desenhou a armadilha e empurrou o país para dentro dela.

O resultado, no fim da linha, recai sobre quem sempre recai: o sujeito que acorda cedo, paga imposto, recebe salário, transfere para o aluguel e fecha o mês no zero. Se uma sanção pesar sobre o sistema, será o seu Pix que falhará, o seu pagamento que será congelado, o seu negócio que ficará sem caixa. Os arquitetos da centralização não passarão fome, porque dinheiro de político e de banqueiro grande sempre encontra caminho alternativo. O Pix nasceu vendido como liberdade e modernidade. Está terminando como coleira eletrônica que qualquer um, lá fora, pode puxar. Quem paga, sempre, é o mesmo de sempre. E quem manda, no fim, nunca é quem dizia mandar.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.