Chamaram de "vestibular" e já começaram errado. Vestibular pressupõe competição aberta, candidatos de origens diversas, critério de mérito. O que o PL montou para definir o vice de Flávio Bolsonaro é o exato oposto: uma seleção cujo resultado já está escrito antes da primeira prova. Todos os nomes testados pertencem ao Progressistas, o partido que Ciro Nogueira comanda como quem administra fazenda própria. É como abrir concurso público em que só uma família pode se inscrever e depois chamar isso de meritocracia. A definição, dizem, vem em junho. A decisão, qualquer pessoa com dois neurônios funcionais percebe, já foi tomada.

A mecânica é velha como a política brasileira e funciona assim: um partido grande precisa de palanque estadual, outro partido médio mas estratégico controla uma fatia generosa do orçamento federal via cargos, emendas e ministérios. Ninguém oferece a vice por admiração ideológica ou competência administrativa. Oferece-se a vice porque o Progressistas tem algo que o PL quer, e o PL tem algo que o Progressistas precisa. O eleitor, esse personagem decorativo da democracia representativa, entra na equação como quem entra em restaurante chique só para usar o banheiro: tolerado, mas irrelevante para o cardápio. A pergunta que ninguém faz em voz alta, mas que deveria estar estampada em outdoor, é simples: qual fatia do Estado muda de mão nessa troca?

Ciro Nogueira não é um nome qualquer no balcão de negócios da República. O Progressistas, sob seu comando, transformou-se numa máquina de ocupação burocrática que atravessa governos de todas as cores ideológicas com a naturalidade de quem troca de camisa conforme o clima. Esteve com Lula, esteve com Dilma, esteve com Temer, esteve com Bolsonaro, e estará com quem vier depois, porque o partido não tem ideologia, tem apetite. E apetite não muda com eleição, só muda de prato. O fato de que todos os nomes "testados" para a vice sejam da legenda de Ciro não é coincidência, é cláusula contratual. Alguém negociou, alguém prometeu, alguém vai cobrar. Sempre é assim.

O que deveria causar escândalo, mas já nem causa bocejo, é a naturalidade com que a imprensa noticia esse tipo de arranjo. "PL abre vestibular para vice", diz a manchete, como se estivesse anunciando feira de ciências em colégio do interior. Ninguém pergunta quanto custa essa aliança em cargos comissionados, em emendas direcionadas, em nomeações para agências reguladoras que deveriam ser técnicas mas funcionam como cabide de luxo. Ninguém calcula o preço por voto que o contribuinte pagará para financiar essa coalizão. O silêncio sobre o dinheiro é sempre o dado mais eloquente de qualquer notícia política. Quando o jornalista não segue a trilha dos recursos, pode ter certeza: a trilha leva a lugar desconfortável.

A coisa toda tem um ar de nobreza do Antigo Regime distribuindo títulos entre primos. O duque promete o condado ao marquês em troca de apoio na próxima guerra, e os camponeses que paguem os impostos para sustentar o acordo. Mudaram as perucas, trocaram as carruagens por jatinhos fretados, mas o mecanismo é idêntico: o poder político existe para ser parcelado entre quem já o detém, e a população participa do espetáculo apenas como financiadora involuntária. Junho chegará, o nome será anunciado com pompa de conclave papal, e ninguém se surpreenderá. Porque surpresa exigiria a possibilidade de um desfecho diferente, e no mercado de alianças partidárias brasileiras, o desfecho é sempre o mesmo: quem tem moeda de troca come, quem vota assiste.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.