Vamos ao fato nu e cru, sem o verniz protocolar que os comunicados partidários adoram aplicar: o Partido Liberal protocolou na embaixada dos Estados Unidos um pedido formal de asilo político para Alexandre Ramagem, ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, detido por agentes de imigração americanos na Flórida. Repita comigo devagar, porque a frase merece ser saboreada em toda a sua ironia: um partido que se diz liberal, defensor da soberania nacional e dos valores patrióticos, está pedindo a um governo estrangeiro que abrigue seu correligionário porque o próprio Brasil se tornou, segundo eles, um lugar perigoso demais para um opositor. A pergunta que qualquer pessoa minimamente lúcida deveria fazer não é se Ramagem merece ou não asilo, mas sim o que esse gesto diz sobre a classe política brasileira em sua totalidade.
Observe a mecânica do absurdo. Durante anos, boa parte da direita brasileira tratou os Estados Unidos ora como modelo civilizatório, ora como inimigo globalista, dependendo da conveniência do ciclo noticioso. Quando Trump ascendeu, era o farol. Quando Biden governava, era a decadência. Agora, com Ramagem detido pelas mesmas autoridades migratórias que a base bolsonarista aplaudiu quando deportavam imigrantes ilegais, o PL pede clemência ao mesmo aparato estatal que celebrava por sua dureza. Não há princípio aqui, há cálculo. E o cálculo é tão velho quanto a política: quando o Estado é seu algoz, você grita tirania; quando é seu escudo, você grita ordem. O que muda não é a natureza do poder, é quem está sentado na cadeira.
A verdade é que esse episódio expõe uma falência que vai muito além de Ramagem ou do PL. Expõe a falência de uma oposição que nunca foi genuinamente liberal, nunca defendeu de verdade a limitação do poder estatal, e agora colhe o fruto amargo da própria hipocrisia. Um partido verdadeiramente comprometido com a liberdade individual teria passado os últimos anos construindo instituições robustas, um Judiciário independente, garantias processuais sólidas, mecanismos legais que protegessem qualquer cidadão, aliado ou adversário, contra o arbítrio do Estado. Em vez disso, quando estava no poder, concentrou energia em aparelhar a máquina, usar a caneta para beneficiar os seus e punir os outros. Agora que a caneta mudou de mão, descobre, surpreso, que a máquina que ajudou a engrossar funciona igualmente bem contra ele. Quem constrói guilhotinas não deveria se espantar quando a lâmina cai no próprio pescoço.
E aqui entra a questão que ninguém no PL quer responder: quem está pagando essa operação? Advogados em Washington não trabalham de graça. Protocolos diplomáticos exigem articulação, lobby, escritórios especializados em imigração americana. Quem financia a defesa de Ramagem no exterior? Dinheiro do fundo partidário, aquele mesmo fundo que sai do bolso do contribuinte brasileiro? Doações de empresários que apostam no retorno político do investimento? O cidadão que paga imposto no Brasil está, talvez sem saber, bancando a fuga de um político para outro país. A ironia é tão grossa que dispensa comentário: o dinheiro confiscado do trabalhador brasileiro via tributação pode estar sendo usado para pedir a um governo estrangeiro que proteja alguém da Justiça brasileira. Se isso não é a definição perfeita de uma classe política que trata o erário como conta corrente pessoal, eu não sei o que é.
O caso Ramagem não é um caso isolado. É um sintoma. É a prova viva de que a política brasileira opera num circuito fechado onde direita e esquerda são apenas rótulos diferentes para a mesma lógica: usar o Estado quando convém, denunciar o Estado quando incomoda, e jamais, em hipótese alguma, reduzir de fato o tamanho e o alcance dessa máquina que todos querem pilotar. Nenhum dos dois lados quer um Estado menor. Ambos querem um Estado enorme, desde que seja o seu Estado. Ramagem na Flórida, o PL em Brasília, o contribuinte pagando a conta: eis o retrato perfeito da república que temos. Não é tragédia, é farsa. E como toda boa farsa, só falta alguém na plateia ter a coragem de rir.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.