Quinze deputados acordaram numa segunda-feira com convicções novas. Não foi iluminação intelectual, não foi crise de consciência, não foi leitura de algum livro inconveniente nas férias. Foi a janela partidária, aquele mecanismo republicano e sofisticado que permite ao político brasileiro trocar de partido sem perder o mandato, como quem troca de camisa antes do jantar. O PL, de 86, foi para 101 representantes na Câmara, e já há quem projete 115 cadeiras saindo das urnas de outubro. A notícia foi celebrada nos grupos bolsonaristas como vitória civilizacional. É uma vitória, sim. Mas de quê, exatamente?
A janela partidária é, em linguagem não diplomática, a prova documental de que o sistema representativo brasileiro foi construído para servir ao político, não ao eleitor. O cidadão que votou num deputado do partido X acorda com seu representante no partido Y, sem ter sido consultado, sem ter o direito de revisar sua escolha, sem qualquer mecanismo de accountability que não seja esperar mais quatro anos e torcer. Em qualquer mercado minimamente honesto, isso seria chamado de fraude contratual. Na política brasileira, chama-se migração. O Estado, que regula com furor cada milímetro da vida privada do trabalhador, trata essa elasticidade moral do mandatário como folclore institucional, coisa de menor importância. Há uma lógica aqui, e ela não é acidental: o sistema foi desenhado para que o poder circule entre os mesmos, com etiquetas trocadas conforme a estação.
Dito isso, a expansão do PL não pode ser lida apenas com desconfiança, sob pena de análise torta. Há algo de genuinamente relevante acontecendo. Quando um partido cresce dessa forma em janela, não é só oportunismo gregário, embora oportunismo gregário certamente exista em abundância. É também sinal de campo gravitacional. Os políticos, criaturas de sobrevivência fina, migram para onde percebem que a base eleitoral está consolidada. E a base bolsonarista, ao contrário do que a imprensa progressista passa dois anos tentando convencer o Brasil, não se dissolve, não envergonha, não some. Ela reorganiza, ela pressiona, ela aparece nas urnas. Os 15 novos membros do PL chegaram não porque Bolsonaro os convenceu com argumentos, mas porque o custo eleitoral de ficar do lado de fora estava ficando alto demais. Isso não é princípio. Mas é diagnóstico.
O número 115, projetado para outubro, merece ser lido com cautela e com seriedade ao mesmo tempo. Com cautela, porque projeção de cadeiras antes de eleição municipal é exercício de propaganda tanto quanto de análise. Campanhas municipais têm lógica própria, e o voto de prefeito raramente obedece à geometria federal com fidelidade. Com seriedade, porque se o PL de fato consolidar essa bancada, a correlação de forças no Legislativo muda de forma estrutural, não conjuntural. Uma bancada de 115 deputados é uma bancada que pode obstruir, que pode negociar de igual para igual, que pode, em tese, fazer o que uma oposição deveria fazer: custar caro ao governo, exigir contrapartidas, impedir saques mais descarados ao erário. Em tese. Porque o histórico do Congresso brasileiro com oposições bem-sucedidas é, para ser gentil, modesto.
O problema central não está no crescimento do PL. Está na ilusão de que crescimento eleitoral resolve o problema de fundo. O Estado brasileiro custa, neste exato momento, mais de 40% do PIB nacional. Cada real que o cidadão produz, quase metade desaparece antes de chegar à sua mesa. Isso não é política fiscal, é predação institucionalizada com CNPJ e gabinete. Uma bancada maior muda quem controla os balcões de distribuição desse dinheiro. Não muda o tamanho do balcão. Não muda a lógica de que o poder em Brasília existe para extrair do contribuinte e repassar aos favorecidos, seja qual for o partido no comando. A direita que celebra 101 deputados precisa responder, com honestidade, uma pergunta simples: para reduzir o Estado, ou para ocupá-lo?
Quinze deputados trocaram de partido em uma semana. Isso diz que o PL está crescendo. Também diz que esses quinze, ontem, eram outra coisa, e amanhã poderão ser outra coisa ainda, dependendo de qual vento vier. Vencer eleições com esse material humano é possível. Mudar o país com ele é outra conversa. A história das repúblicas que tentaram reformar a si mesmas usando os mesmos homens que as corromperam é longa, instrutiva e triste. O Brasil tem material abundante para mais um capítulo dessa série.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.