Existe uma ironia deliciosa no fato de que o cidadão comum, treinado para temer agrotóxico em maçã importada e gordura trans em biscoito recheado, planta voluntariamente em seu próprio quintal vegetais capazes de matar uma criança em quarenta minutos. A comigo-ninguém-pode, o copo-de-leite, o jasmim-manga, a coroa-de-cristo, a saia-branca, todas elas vivem ali, ao lado do escorregador colorido, esperando o dedinho curioso que vai descobrir, da pior forma possível, que a clorofila não é sinônimo de bondade. A natureza, pasmem, não assinou o contrato social.

O paradoxo é cômico se não fosse trágico. O mesmo sujeito que exige selo, tarja preta, advertência em caixa alta e propaganda de utilidade pública para qualquer coisa industrializada, encara com ternura a manchineel, conhecida como a árvore da morte, cuja seiva queima a pele e cujo fruto matou conquistadores espanhóis no Caribe. O cicuta, que liquidou filósofo grego em praça pública vinte e três séculos atrás, segue crescendo despreocupado em beira de estrada, sem registro na vigilância sanitária, sem código de barras, sem QR code para o consumidor consciente conferir a procedência. A oleandra ornamenta avenida pública em cidade litorânea, e ninguém grita por uma CPI.

Aqui mora a lição que o burocrata não quer que você aprenda. O perigo real do mundo não cabe em formulário. O ricino, planta de onde se extrai a ricina, veneno usado em assassinato político na Guerra Fria, é a mesma de onde sai o óleo que sua avó usava como laxante. A diferença entre o remédio e o veneno está na dose, no preparo, no uso, e essa diferença depende do conhecimento individual, da prudência herdada, da experiência transmitida de pai para filho, não de uma agência reguladora com mil servidores estáveis e nenhum botânico de verdade. A sabedoria não se decreta em diário oficial.

Repare em quem ganha com o medo organizado e em quem ganha com o medo real. O medo organizado, aquele do açúcar, do glúten, do colesterol da semana, alimenta indústria de palestrante, instituto de pesquisa subsidiado, ONG financiada por fundação estrangeira e político em ano eleitoral. O medo real, o da planta que mata em silêncio, alimenta absolutamente ninguém, porque não rende campanha, não vira hashtag, não justifica imposto novo. Por isso a primeira existe em outdoor e a segunda em livro velho de farmacopeia popular que ninguém mais lê. O Estado adora um pânico que ele mesmo possa monetizar.

O conselho prático é antigo como a humanidade que sobreviveu sem ministério: olho aberto, mão fechada, boca calada diante do que não se conhece. Ensine a criança a não enfiar folha estranha na boca, ensine o adulto a usar luva ao podar, ensine a si mesmo que a beleza não é certificado de inocência, e nenhuma planta ornamental jurou lealdade ao seu condomínio. A responsabilidade pelo próprio quintal é sua, intransferível, indelegável, e nenhum decreto vai correr para o pronto-socorro no seu lugar quando a hora chegar. Confiar a própria sobrevivência ao zelo alheio sempre foi o caminho mais curto para ser enterrado por uma flor bonita.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.