O vice-presidente da República, santista confesso e homem de Estado de carreira longa o suficiente para saber exatamente o que está fazendo, olhou para as câmeras e disse que torce para Neymar ir à Copa. "Pode ir, né? Vamos torcer." Frase curta, peso político calculado, efeito garantido. Nenhum jornalista perguntou o que o vice-presidente pensa sobre a alíquota do Imposto de Renda da pessoa física, sobre a dívida pública que cresce enquanto o PIB caminha de lado, sobre o custo do funcionalismo que o contribuinte carrega nas costas sem que ninguém lhe pergunte se quer. Mas sobre Neymar, ah, sobre Neymar todo mundo tem algo a dizer, inclusive quem administra o segundo maior cargo do Executivo nacional.
Existe uma lógica implacável por trás disso, e ela não é acidental. O Estado brasileiro, em qualquer de suas configurações partidárias, descobriu há muito tempo que o futebol funciona como uma válvula de escape de precisão cirúrgica. Quando a inflação corrói o salário, quando a fila do hospital não anda, quando a escola pública forma analfabetos funcionais, o noticiário encontra na seleção brasileira um assunto capaz de ocupar o espaço emocional que a indignação política deveria ocupar. Não é conspiração: é conveniência mútua tão antiga quanto a humanidade organizada em poder. Os romanos chamavam de pão e circo, pagavam do erário e se mantinham no trono. A diferença é que hoje o circo é transmitido em quatro K e a conta vem embutida nos impostos sobre o ingresso, na isenção fiscal da CBF e no patrocínio estatal disfarçado de parceria comercial.
Porque é preciso seguir o dinheiro até o fim. A Confederação Brasileira de Futebol opera com isenções tributárias que uma padaria do interior jamais sonharia em obter. Os clubes de futebol profissional no Brasil acumularam décadas de dívidas com o FGTS e o INSS de seus próprios trabalhadores, e o Estado, em vez de cobrar como cobaria qualquer microempresário inadimplente, criou programas de refinanciamento com deságio e prazo estendido. A Fifa, organização privada com sede na Suíça, recebeu garantias do governo federal para sediar a Copa de 2014, isenções fiscais negociadas em lei específica, e ainda assim o debate público na época girava em torno da cor da camisa e da formação tática do técnico. Quem negociou essas concessões nunca prestou contas. Quem torceu ficou satisfeito. A equação fecha bonita para quem está do lado certo da mesa.
Neymar, diga-se de passagem, é um homem livre para jogar ou não jogar onde bem entender, e isso não é assunto de governo. O problema não é o jogador: é o vice-presidente da República usando o jogador como figurino político. Existe uma confusão deliberadamente cultivada entre o governante e o torcedor, entre o agente do Estado e o cidadão comum que paga o ingresso e assiste ao jogo. O político que se mostra torcedor apaixonado não está sendo autêntico: está comprando cumplicidade emocional. Está dizendo, sem dizer, que ele e você são a mesma coisa, que partilham os mesmos sonhos, que a distância entre o Palácio do Planalto e a arquibancada é apenas geográfica. Não é. Nunca foi. O homem que decide onde vai o seu dinheiro compulsoriamente recolhido não tem o mesmo interesse que você. Torcer juntos não apaga essa diferença: apenas a esconde por noventa minutos.
A convocação sai em 18 de maio. Os jornais vão abrir com isso. Os programas de debate vão reservar horas para discutir se o jogador está em forma, se o técnico acertou, se o Brasil tem chance. Nesse período, nenhuma reforma estrutural será cobrada com o mesmo vigor, nenhum escândalo de desvio vai ganhar a mesma temperatura, nenhuma discussão sobre por que o brasileiro trabalha cinco meses por ano só para financiar um Estado que não lhe devolve nada funcionando vai ocupar o horário nobre. O vice-presidente sabe disso. Torcer custa barato e rende muito. O contribuinte que bancar a festa, como sempre, nem vai perceber que está pagando.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.