O presidente do Conselho Deliberativo de um dos clubes mais ricos do continente é investigado pela suspeita de ter encomendado, validado ou empurrado adiante um documento que serviu de base para a reforma estatutária e a criação da tal Sociedade Anônima do Futebol. Traduzindo do dialeto cartolês para o português dos mortais: pode ter havido fraude no pedaço de papel que abriria a porteira para investidores comprarem fatias do clube. E na terça (12.mai), os mesmos conselheiros que assistiram à novela vão decidir se afastam o sujeito da cadeira. O roteiro é tão grosseiro que ofende a inteligência até de quem nunca leu uma ata.

Pergunta indelicada, daquelas que estragam o churrasco da diretoria: a quem interessa que um estatuto centenário seja alterado às pressas, com base em parecer de procedência duvidosa, justamente no momento em que se desenha uma operação que pode movimentar centenas de milhões de reais em aporte de fundos? Não é preciso doutorado em economia para perceber que reforma estatutária de clube grande é a antessala de uma reengenharia patrimonial, e que toda reengenharia patrimonial tem um beneficiário oculto e um pagador escondido. O beneficiário costuma sair sorrindo no jornal econômico. O pagador é sempre o coitado da arquibancada, que descobre dez anos depois que o time não é mais dele.

O SAF é vendido ao torcedor como modernização, profissionalização, salvação. Vocabulário de catequese laica. Por trás da liturgia, está apenas a velha mecânica de transformar associação sem fins lucrativos, ou seja, propriedade difusa de milhares de sócios, em ativo negociável de poucos. Não há nada de errado em vender, comprar, fundir ou liquidar, desde que quem decide seja efetivamente o dono. O problema começa quando a transferência de poder é precedida de um documento suspeito, redigido por quem talvez não tivesse legitimidade alguma para assinar. Aí já não é capitalismo, é jogo de cartas marcadas com baralho do cassino da casa.

Roma, no fim da República, também trocou estatuto. Chamava-se de reforma necessária, de adaptação aos novos tempos, de pragmatismo diante das circunstâncias. O Senado, recheado de homens muito sérios e muito bem pagos, ia carimbando o que precisava ser carimbado. Quando o povo percebeu, o nome do regime tinha mudado e a propriedade da coisa pública tinha endereço novo. Toda vez que alguém apressa a alteração das regras fundamentais alegando urgência, convém pôr a mão no bolso e verificar se a carteira ainda está lá. A história não se repete, mas os truques sim.

O detalhe deliciosamente revelador é que a investigação chega pela porta da Polícia Civil, não pela porta do próprio conselho. Quer dizer: a instituição que deveria se autorregular precisou que um delegado batesse ponto para descobrir que talvez houvesse falsidade ideológica embaixo do tapete persa da sede social. Autorregulação de clube rico funciona como autocontrole de criança em loja de doce: existe no papel, fracassa na prática. E quando fracassa, sempre sobra para o monopólio estatal da força aparecer como salvador, o que é particularmente irônico, porque o mesmo Estado que agora investiga será, amanhã, o que vai tributar o negócio, regular o negócio e, se der certo, exigir uma fatia do negócio.

Resta a pergunta que abre e fecha tudo: quem paga e quem recebe? Paga o sócio idoso que carrega carteirinha desde os anos setenta e acredita que ainda manda em alguma coisa. Paga o torcedor anônimo que financia o espetáculo comprando ingresso, camisa e assinatura. Recebem os intermediários, os escritórios de advocacia especializados em SAF, os fundos que esperam o ativo destravar, e os dirigentes que sairão da operação com currículo turbinado e cadeira garantida no novo conselho de administração. Se o documento foi mesmo forjado, não foi acidente, foi método. E método, na vida pública como no vestiário, sempre serve a um time específico, ainda que vista a camisa de todos.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.