A cena é digna de roteiro de pastelão, não fosse trágica. Sujeito apanha o cachorro da ex-namorada dentro de um pet shop em São Paulo, a mulher que ele já havia agredido a ponto de motivar um boletim de ocorrência, e usa o animal como moeda de troca para forçá-la a retirar a denúncia de violência doméstica. O canídeo vira refém, a vítima vira negociadora, e o agressor, em plena luz do dia, assina o próprio atestado de idiotice confessando que a denúncia era verdadeira. Quem precisa chantagear a vítima é porque a vítima está certa, e isso não exige mestrado em lógica, basta dois neurônios funcionando em série.

Há aqui uma confissão involuntária que mereceria ser emoldurada. O homem, ao sequestrar o animal, admite em ato que a agressão aconteceu, que ela dói na justiça, e que sem a retirada do registro sua vida azeda. Ou seja, o próprio criminoso reconhece o peso da denúncia, e ainda assim aposta que a mulher vai ceder ao ver o cão de pelúcia usado como arma. É a velha lógica do valentão doméstico, aquele que bate portas adentro e se desmancha em choradeira portas afora, o mesmo tipo que em todos os séculos da história humana precisou de uma vítima menor do que ele para se sentir grande. Muda o figurino, muda o cenário, o sujeito é o mesmo desde que o primeiro bárbaro descobriu que era mais fácil ameaçar do que trabalhar.

Agora, vejam a ironia do arranjo. O animal, legalmente, é propriedade. Propriedade é aquilo que se adquire com trabalho, afeto, dinheiro, tempo, e que pertence a quem pagou o preço da aquisição e assume a responsabilidade pelo bicho. A mulher tinha o cão, o cão foi tomado, e de repente descobrimos que a máquina pública, tão lenta para proteger pessoas, consegue mobilizar equipe para recuperar um quadrúpede em tempo recorde. Não me entendam mal, recuperar o cachorro é obrigação e é correto, o detalhe desagradável é que a estrutura só funciona com velocidade quando o caso vira viral ou pitoresco. Enquanto isso, milhares de mulheres com medidas protetivas de papel continuam esperando a viatura que nunca chega, porque burocracia não corre contra o relógio do agressor.

Pense no absurdo do incentivo. O Estado confisca metade do que a cidadã produz para, em tese, oferecer segurança, justiça célere e proteção à integridade física. Na prática, a cidadã precisa registrar a denúncia, sobreviver à retaliação, recuperar seu bem por conta própria, e ainda torcer para que o namoradinho ensandecido não resolva incendiar o apartamento na sequência. Paga-se pelo serviço, recebe-se o panfleto. É o modelo de negócio mais bem-sucedido já inventado pela humanidade: vender proteção obrigatória, cobrar adiantado, entregar quando der. Qualquer seguradora privada que operasse assim estaria fechada e seus diretores respondendo processo, só que quando o monopólio tem fuzil e caneta, ninguém cancela o contrato.

E há o pano de fundo cultural, que é onde mora o veneno mais lento. Cria-se há décadas uma ambiguidade confortável em torno da violência doméstica, aquela conversinha fiada de que era só um desentendimento, que o casal se ama, que denúncia exagerada complica a vida do rapaz, que cachorro é coisa de mulher, que homem de verdade resolve em casa. Esse caldo de relativização é que produz o tipo que planeja furtar um animal de estimação em pleno pet shop achando que vai sair por cima. O sujeito não acorda gênio do crime, ele é o produto acabado de um ambiente que sussurrou no ouvido dele, desde a adolescência, que sempre há um jeitinho, que toda denúncia pode ser desfeita com pressão, e que a palavra da vítima vale menos do que a conveniência do agressor.

Resta o saldo cômico-trágico da notícia. O herói da história foi preso, o cachorro voltou para casa, e a denúncia de violência doméstica continua de pé, porque agora há, além do depoimento dela, um segundo crime documentado que serve como brinde probatório. O agressor, na tentativa de apagar o rastro, desenhou com letra garrafal o mapa completo da própria culpa. Quem paga essa palhaçada é a vítima, que ainda terá de arrastar o processo por anos, e o contribuinte, que financia cada minuto da novela. Quem recebe é o agressor, com três refeições diárias custeadas pelo bolso alheio, e a classe política que vai usar o caso para propor mais uma lei redundante que ninguém fiscaliza. O cão, ao menos, voltou para os braços certos, o que já é mais do que muita gente consegue ao recorrer à justiça neste país.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.