Na última semana, deputados federais brasileiros, eleitos por cidadãos de Recife, de Belém, de São Paulo, interromperam sua rotina parlamentar para erguer taças, metafóricas ou não, em homenagem a uma eleição ocorrida a onze mil quilômetros de distância, num país com o qual o Brasil não tem nem vizinhança, nem tratado estratégico relevante, nem sequer um jogo amistoso de futebol na memória recente. O evento em questão foi a derrota eleitoral de Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria. Que um representante do povo brasileiro sinta tamanha comoção com o resultado de uma urna europeia não seria, em si, um crime. O que torna o episódio revelador é a qualidade dessa alegria: não é a alegria de quem torce por um ideal abstrato de democracia. É a alegria de quem reconhece, no adversário abatido, um inimigo de facção.

A distinção é importante e precisa ser dita sem eufemismo. Quando um deputado brasileiro sobe às redes sociais para decretar o "fim do ciclo da extrema-direita" por causa de uma eleição em Budapeste, ele não está fazendo análise política. Ele está participando de uma narrativa coordenada, cuja lógica interna não é geográfica nem democrática, mas tribal e internacional. É o mesmo reflexo que faz com que certos jornalistas europeus cubram eleições brasileiras como se fossem conflitos locais seus, que faz com que fundações de partidos alemães financiem movimentos sociais aqui, que faz com que o resultado de qualquer urna em qualquer longitude seja imediatamente codificado como vitória ou derrota de um time com camisas iguais em todos os continentes. Há um nome antigo para esse tipo de arranjo: Internacional. A primeira foi a dos trabalhadores. A atual não tem nome, mas tem carteirinha.

E aqui a trilha do dinheiro, como sempre, diz mais do que o discurso. Orbán foi, nos últimos anos, o maior obstáculo interno da União Europeia ao repasse de verbas condicionadas a critérios de "estado de direito" definidos por burocratas de Bruxelas, cujas cabeças nunca foram submetidas a voto algum. Sua resistência ao pacote migratório, sua recusa em romper relações comerciais com a Rússia a mando de Washington, sua oposição à ideologia de gênero imposta como condição para receber financiamento europeu: tudo isso custou à Hungria bilhões em fundos bloqueados pela Comissão Europeia. Quando Orbán cai, esses canos voltam a fluir. E os mesmos que festejam a "democracia" são os que estavam com sede. Não é coincidência. É causalidade. O poder organizado age com a frieza de quem conhece bem a diferença entre causa e efeito.

Há uma ironia que não pode passar em branco. O partido que dança sobre o túmulo eleitoral de Orbán é o mesmo que, durante anos, acusou qualquer crítica externa ao governo brasileiro de "ingerência nos assuntos internos". A soberania, nessa cosmologia, funciona como uma peneira: bloqueia o que incomoda, deixa passar o que convém. Quando George Soros financia organizações ligadas à oposição conservadora em qualquer país, isso é "sociedade civil". Quando qualquer governo questiona o financiamento externo de seus movimentos sociais, isso é "autoritarismo". A assimetria não é acidente intelectual. É posição estratégica, e quem não a reconhece como tal está sendo ingênuo ou desonesto, e geralmente é as duas coisas ao mesmo tempo.

O problema de fundo não é partidário. É filosófico, e tem raízes mais profundas do que qualquer eleição húngara pode iluminar. Há uma visão de mundo que entende a política não como o esforço coletivo de uma comunidade específica para organizar sua vida comum, mas como o front de uma guerra global entre forças do bem e do mal, onde "bem" é exatamente o que o partido determina que seja. Nessa visão, a nação é um obstáculo. A comunidade local é um atraso. O povo concreto, com seus costumes, sua fé, sua língua, seu direito de dizer não, é um problema a ser educado, quando não suprimido. Orbán, com todos os seus defeitos reais e exagerados, representava a resistência de um povo pequeno e orgulhoso a ser engolido por uma estrutura supranacional que não elegeu e não controla. Que isso seja celebrado como "derrota da extrema-direita" diz menos sobre a Hungria do que sobre quem festeja.

O deputado que ergue o copo por Budapeste enquanto o Brasil tem hospitais sem médico, escolas sem professor e um Estado que consome cinquase metade do que o país produz está nos dizendo, sem querer, qual é a sua verdadeira prioridade. Não é o Brasil. Nunca foi. É o time. E o time não tem bandeira nacional, tem bandeira de facção. Isso, no mínimo, merecia uma nota de repúdio de quem quer que ainda leve a sério a ideia de que um mandato popular é uma responsabilidade local, não um ingresso para circo global.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.