Uma ponte custou mais de trinta e cinco milhões de reais, foi entregue com bandinha e discurso há cerca de trinta meses, e na noite de sexta-feira despencou sobre o Rio Iaco como um castelo de areia que alguém chutou. Quatro feridos, um susto coletivo em Sena Madureira, e a curiosa coincidência de que a interdição preventiva ocorreu vinte e quatro horas antes do colapso, como se os engenheiros responsáveis tivessem um sexto sentido invejável para fugir da própria obra. Pelos romanos, há dois mil anos, ainda passam caminhões. Pelo Frei Paolino Baldassari não passa mais nem o vento, e ninguém se pergunta por que aquele aqueduto de Segóvia continua de pé sem licitação, sem secretaria de infraestrutura, sem comissão técnica e, principalmente, sem trinta e cinco milhões investidos no que deveria ser apenas concreto, ferro e vergonha na cara.

Vamos ao essencial, que é o caminho do dinheiro. Trinta e cinco milhões saíram do bolso do pedreiro, do feirante, do motoboy, do servidor humilde que paga imposto até no boleto da luz, e foram parar no caixa de alguma empreiteira que assinou contrato, recebeu medição, deu baixa na obra e sumiu na poeira do cerimonial de inauguração. A pergunta não é técnica, é contábil. Quem assinou o projeto? Quem fiscalizou a execução? Quem aprovou a medição final? Quem recebeu, em espécie ou em espécies mais sofisticadas, a gratidão da empresa contratada? Cada uma dessas perguntas tem nome, CPF e conta bancária, e cada uma dessas respostas mora confortavelmente no silêncio institucional que se segue a toda tragédia anunciada.

O detalhe da interdição na véspera é a cereja podre do bolo. Significa que alguém sabia. Significa que a estrutura dava sinais visíveis de fadiga, rachaduras, deformações, algo que um olho treinado identificou e classificou como risco iminente. Mas a pergunta que ninguém faz é a anterior: se a ponte tinha apenas dois anos e meio de uso, por que ela já apresentava sintomas terminais? Concreto armado bem feito dura cem anos. O da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, aguentou quase um século com a estrutura original antes de pedir reforma. O do Frei Paolino não aguentou nem o segundo mandato de prefeito. A explicação não está na engenharia, está na planilha de custos paralela, naquela que registra o quanto saiu do contrato e o quanto efetivamente virou cimento dentro da fôrma.

A obra pública tem uma característica fascinante que o cidadão comum demora a entender. Quando você contrata um pedreiro para erguer o muro do seu quintal, ele responde com o próprio nome, o próprio prejuízo e a própria reputação. Se o muro cair em seis meses, você sabe a casa dele e cobra. Quando o Estado contrata uma ponte, ninguém responde por nada. O político inaugurador já mudou de cargo, o secretário foi para a iniciativa privada como consultor, o engenheiro fiscal aposentou, a empresa construtora trocou de razão social três vezes, e o contrato original está enterrado num arquivo morto que ninguém tem competência legal para desenterrar. O resultado é matemático, não opinativo. Onde não há responsabilidade pessoal, há ponte caindo. Sempre. Em qualquer lugar do mundo. Em qualquer época da história.

E aqui mora o silogismo que ninguém quer enxergar. Se obra pública é mais cara que obra privada equivalente, e se obra pública dura menos que obra privada equivalente, então obra pública é, por definição, um péssimo negócio para quem paga e um excelente negócio para quem recebe. Não há terceira hipótese. A ponte do Acre não é um acidente, é uma confirmação. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar, transferindo recursos do contribuinte invisível para o contratado visível, com a benção da assinatura oficial e o aval da inauguração festiva. Que o concreto caia depois é detalhe operacional, faz parte do modelo de negócio. A obra já cumpriu sua função econômica no dia em que a última parcela foi liberada.

Resta a parte cômica, que sempre acompanha o trágico nestes episódios. Vai vir o pronunciamento solene, a comissão de inquérito, o relatório técnico, a promessa de reconstrução, talvez até um novo edital com valor corrigido para cima por conta da urgência. A mesma engrenagem que fez a primeira ponte cair vai construir a segunda, com os mesmos atores, os mesmos métodos e o mesmo destino provável. O contribuinte vai pagar duas vezes pela mesma travessia, e ainda vai aplaudir quando o próximo político cortar a fita. Enquanto isso, o aqueduto romano de Segóvia continua firme, sem manutenção, sem orçamento suplementar, sem secretário, sem comissão. Talvez porque os romanos crucificassem engenheiros cujas obras desabavam. Era brutal, concordo. Mas, convenhamos, eficaz.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.