A cena é universal, quase litúrgica. Você abre a porta do armário, e uma avalanche de plástico desaba na sua cabeça como se o próprio destino estivesse cobrando uma dívida antiga. Potes sem tampa, tampas sem pote, marmitas de padaria do ano retrasado, aquele vidro de azeitona vazio que alguém, num momento de lucidez duvidosa, decidiu que serviria para guardar parafusos. O armário está cheio, a vida está cheia, a cabeça está cheia, e agora vêm os especialistas de plantão anunciar, com cara de quem descobriu a pólvora, que o entulho doméstico é sintoma de exaustão emocional. Notável. Faltava alguém com diploma para nos informar que bagunça cansa.

O diagnóstico, no entanto, não é de todo falso, só chega com meio século de atraso e embrulhado em jargão caro. O sujeito moderno acumula porque não confia em nada. Não confia na moeda que derrete no bolso, não confia no emprego que pode virar pó amanhã, não confia no governo que promete aposentadoria e entrega imposto, não confia nem no próprio discernimento para dizer se aquele pote ainda serve ou se já virou fóssil. Guardar o inútil virou uma espécie de apólice de seguro contra um futuro que todo mundo pressente hostil. E pressente com razão. Quando a poupança rende menos que a inflação oficial, que por sua vez rende menos que a inflação real, a mente começa a acreditar, no nível mais primitivo, que qualquer objeto físico é mais confiável do que um número na tela do banco.

Há uma lógica cruel nesse comportamento, e ela não é psicológica, é econômica. O acumulador compulsivo é o produto final de décadas de confisco silencioso. Quando o rendimento do seu trabalho é pulverizado por tributos visíveis, tributos invisíveis, tarifas embutidas em cada litro de combustível e cada pacote de arroz, o instinto mamífero entra em cena e sussurra no ouvido: guarde tudo, porque repor custa mais do que você imagina. O pote de sorvete vazio deixa de ser lixo e se torna reserva estratégica. O saco plástico vira patrimônio. E o armário, que deveria ser um utensílio, transforma se num pequeno cofre tropical, lotado de relíquias da era em que dava para comprar coisas novas sem pensar três vezes.

Some se a isso a avalanche de estímulos que o cidadão recebe por dia. Notificação do banco, notificação do aplicativo de mensagem, notificação do governo pedindo mais um cadastro, mais uma declaração, mais um comprovante de que você existe e continua pagando. O cérebro, coitado, entra em estado de sítio permanente. E quando o cérebro está sitiado, ele faz o que qualquer guarnição cercada faria: estoca munição, ainda que a munição seja uma caixa de papelão da farmácia guardada atrás da geladeira. A desordem doméstica é o reflexo doméstico da desordem institucional. Quem vive num país onde a regra muda toda semana, onde o tributo de hoje é o crime de amanhã, termina replicando o caos dentro da própria cozinha, sem perceber.

E aí vem o golpe de misericórdia, vendido como terapia. Existe hoje uma indústria bilionária de organização pessoal, coaches de minimalismo, aplicativos de produtividade mental, influenciadores que ensinam a dobrar camiseta como se fosse cerimônia xintoísta. Pagam se cursos, assinaturas, consultorias, livros autoajuda travestidos de neurociência, tudo para curar um problema cuja causa raiz ninguém tem coragem de nomear. Porque nomear daria trabalho. Daria trabalho reconhecer que a exaustão do brasileiro médio não é falta de mindfulness, é excesso de Leão. Que o armário transborda porque a carteira murcha. Que a ansiedade do acúmulo é a irmã gêmea do confisco. É bem mais lucrativo vender meditação guiada do que devolver ao cidadão o fruto do próprio suor.

O conselho honesto, portanto, custa zero reais e não rende comissão a ninguém. Jogue fora os potes, sim, mas, antes disso, jogue fora a ilusão de que a sua exaustão é um defeito de fábrica da sua mente. Ela não é. É o preço cobrado, em silêncio, por um arranjo que transforma trabalho em tributo, tributo em dívida, dívida em inflação, e inflação em armário entupido. O resto é literatura de autoajuda para distrair o rebanho enquanto o tosquiador afia a tesoura. Organize a cozinha, claro. Mas não confunda a arrumação do armário com a arrumação da vida, porque enquanto o pote e a tampa não se reencontram, há sempre alguém, em algum gabinete, muito bem organizado, anotando quanto ainda dá para tirar de você.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.