As ações da Academy Sports & Outdoors desabaram nesta quinta-feira depois que a companhia revisou para baixo suas projeções anuais, confessou queda nas vendas comparáveis e admitiu, com aquela linguagem asséptica dos comunicados corporativos, que o consumidor americano está "cauteloso". Cauteloso, veja você. É o eufemismo que o mercado inventou para não dizer o óbvio, o sujeito que ganha quarenta mil dólares por ano nos Estados Unidos não tem mais como pagar a bola de basquete do filho, a barraca de camping da família e o tênis de corrida da esposa depois de quatro anos comendo inflação de dois dígitos disfarçada de "transitória".
Olha, o roteiro é sempre o mesmo e a plateia continua caindo no truque. Primeiro o governo abre a torneira, joga trilhões na veia da economia para "salvar empregos" durante uma pandemia que ele próprio ajudou a transformar em catástrofe econômica. Depois o banco central segura os juros perto de zero por tempo demais, infla o preço de tudo que é ativo e cria a ilusão de que o americano ficou rico. As varejistas, embriagadas pela farra do dinheiro fácil, expandem lojas, contratam gente, empilham estoque. Vem a ressaca, os juros sobem, o crédito trava, o cartão estoura, e agora a Academy Sports descobre que vender bicicleta ergométrica de mil dólares para quem está atrasando o aluguel não é exatamente um modelo de negócio sustentável.
Quer dizer, o que se vê é a ação caindo dez por cento no pregão e os analistas de banco correndo para rebaixar preço-alvo com aquela cara de surpresa ensaiada. O que não se vê é a cadeia inteira de destruição silenciosa que produziu esse número. O que não se vê é o pequeno fornecedor da Academy que agora vai cortar turno, o motorista de caminhão que vai perder rota, o funcionário da loja em Oklahoma que vai receber o aviso prévio na semana que vem. Tudo isso é fruto direto de uma engenharia monetária que uns poucos homens de terno num prédio em Washington acharam que podiam calibrar como se a economia fosse um termostato de casa de rico.
E aí vem a parte engraçada, se é que dá para rir. Enquanto a Academy sangra, os mesmos meios de comunicação que passaram dois anos aplaudindo os pacotes de estímulo agora vão publicar matéria comovente sobre a "crise do varejo", como se o varejo tivesse sido atingido por um meteoro vindo do espaço. Ninguém vai ligar o ponto A ao ponto B. Ninguém vai lembrar que gastar aquilo que você não tem, com dinheiro que você imprimiu, comprando coisas que você não precisa, sempre termina exatamente do mesmo jeito ao longo de dois séculos de história econômica documentada. É como se cada geração precisasse quebrar o mesmo brinquedo para descobrir que ele não é indestrutível.
Siga o dinheiro e a fotografia fica ainda mais nítida. As varejistas que sobreviverem a esse ciclo serão as gigantes com balanço para segurar o tranco, as pequenas vão morrer, e daqui a dois anos os mesmos economistas de plantão vão escrever colunas lamentando a "concentração de mercado" e pedindo mais regulação para consertar o problema que a regulação anterior criou. É a espiral perfeita, a intervenção que gera a distorção que justifica a nova intervenção, e o cidadão comum pagando o pato em cada volta do carrossel. A Academy Sports não é uma anomalia, é um aviso pregado na porta.
O consumidor não está cauteloso. O consumidor está quebrado. E enquanto o presidente do banco central continuar aparecendo em entrevista coletiva falando em "pouso suave" com aquela solenidade de padre em enterro, mais companhias vão desfilar pelo cadafalso trimestral vestidas de projeção revisada. A conta da festa sempre chega, e quem não bebeu é quem paga a maior fatia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.