A pergunta parece inocente, quase escolar: por que não há crocodilos no Brasil? A resposta verdadeira incomoda quem acredita que o mundo precisa de um conselho regulador para cada coisa que se mexe. Não há crocodilos por aqui porque a evolução, esse processo silencioso e absolutamente livre de comitês consultivos, já decidiu há muitos milhões de anos que esta porção do planeta seria habitada por jacarés. O ancestral comum se separou, as massas de terra se afastaram, os oceanos se ergueram como muros, e cada linhagem seguiu seu rumo sem precisar de autorização federal, licença ambiental ou parecer técnico de subsecretário. O continente americano ficou com os aligatorídeos; a África, a Ásia e a Oceania ficaram com os crocodilídeos. Pronto. Funcionou.

A diferença entre os dois é menos misteriosa do que querem fazer parecer. O jacaré tem focinho largo, em forma de U, mandíbula que esconde os dentes quando fecha a boca, porte em geral menor e temperamento que, comparado ao primo africano, é quase de cavalheiro interiorano. O crocodilo tem focinho afilado, em V, dentes que continuam aparecendo mesmo de boca fechada, porte avantajado e a paciência de um cobrador de imposto: espera, observa, calcula e ataca. Convive com água salgada, atravessa estuários, sobe rios. O jacaré prefere a água doce, o pântano, o igapó, o remanso. Cada um no seu canto, cada um no seu ecossistema, sem precisar que ninguém venha redistribuir habitats em nome da equidade reptiliana.

Aqui mora a lição que os modernos urbanitas insistem em não aprender. A natureza opera por ordem espontânea há bilhões de anos, sem ministro, sem secretário, sem departamento de planejamento. Espécies surgem, se adaptam, ocupam nichos, recuam, desaparecem. Nenhum jacaré jamais reuniu uma assembleia para definir cotas de peixe por hectare de várzea. Nenhum crocodilo do Nilo precisou de uma agência reguladora para descobrir que rio é onde se caça. O equilíbrio, esse fenômeno que os ambientalistas profissionais juram que só existe se houver verba pública, é justamente o que sobra quando ninguém de gravata se mete onde não foi chamado. O Pantanal está cheio de jacarés porque o Pantanal sempre soube cuidar de si mesmo, até o dia em que descobriram que dava para vender carbono em cima dele.

E o que se faz quando se encontra um jacaré? A resposta sensata é a mais antiga do mundo: respeite o bicho, mantenha distância, não alimente, não provoque, não tente posar para foto agarrado nele. A propriedade do animal sobre o próprio território é anterior a qualquer escritura, anterior a qualquer cartório, anterior a qualquer legislação ambiental escrita em Brasília por gente que nunca viu um pantanal de perto. O sujeito que invade a beira do rio com cooler e caixa de som e depois se assusta porque um réptil de duzentos quilos não gostou da intromissão é exatamente o mesmo tipo que pede para o Estado resolver o que ele próprio criou. Ninguém é obrigado a ser jantar, mas ninguém também é obrigado a fingir que o pantanal é piscina de clube.

O detalhe saboroso é que, no fim, a história natural dos répteis brasileiros é uma pequena parábola contra o intervencionismo. A separação dos continentes, a deriva das espécies, a adaptação aos ambientes, tudo aconteceu sem comissão parlamentar de inquérito, sem programa de governo, sem ONG patrocinada por fundação estrangeira recebendo dinheiro para descobrir o óbvio. O jacaré não precisa de você, não precisa de subsídio, não precisa de cota de exportação. Precisa apenas que o deixem em paz. Pena que essa lição, tão clara para qualquer caboclo ribeirinho, seja incompreensível para quem mora a sete andares de altura e acredita que o mundo só funciona se houver alguém assinando portaria.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.