O caso é quase cômico na sua simplicidade. Uma plataforma estrangeira, rodando modelos de preço justo automatizados, cruzou fluxo de caixa descontado, múltiplos de pares e projeção de receita, e cuspiu um número. O número dizia que uma companhia brasileira de alimentos negociava com desconto obsceno em relação ao que os próprios fundamentos sugeriam. Quem clicou, comprou. Quem comprou, embolsou 51% de valorização em poucos meses. Enquanto isso, o relatório da corretora tradicional, aquele com capa colorida e assinatura de três analistas certificados, continuava com recomendação neutra, aquela palavra covarde que serve para não errar sozinho.
Aqui começa a piada séria. O mercado brasileiro de análise financeira é um clube. Um clube onde o analista almoça com o diretor de relações com investidores da empresa que ele cobre, onde o banco que emprega o analista também faz oferta pública de ações da mesma companhia, e onde o pior pecado profissional não é errar, é errar sozinho. Errar em grupo é consenso de mercado. Errar sozinho é demissão. Nesse ambiente, uma ação subvalorizada pode ficar subvalorizada por anos, não porque o mercado é ineficiente no sentido acadêmico, mas porque os agentes profissionais têm incentivo pessoal para não ver o que está ali.
O algoritmo não tem esse problema. O algoritmo não almoça com ninguém, não tem bônus atrelado à colocação de ações, não teme perder cliente institucional. Ele olha os números e diz o que os números dizem. Não é magia, não é inteligência sobre-humana, é apenas ausência de conflito de interesse. É a demonstração prática de que informação dispersa, quando processada sem os filtros de conveniência do sistema financeiro estabelecido, produz resultado superior. O sujeito no apartamento em Passo Fundo, pagando trinta dólares por mês numa assinatura, viu antes do gestor de fundo com sala em São Paulo que administra bilhão de reais.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Por que uma casa que vive de análise não entrega essa análise? Porque o produto real vendido pelas grandes casas não é informação precisa, é cobertura institucional. O relatório serve para justificar decisões já tomadas, para dar cobertura contábil a fundos que precisam mostrar diligência, para alimentar a máquina de emissão e distribuição. O cliente varejo é o último a receber e o primeiro a pagar. Quando o relatório vira otimista, o institucional já entrou. Quando vira pessimista, o institucional já saiu. O varejista fica com a pá do outro lado da mesa.
E tem a camada regulatória, que ninguém comenta. A mesma CVM que exige mil e um selos, certificações e disclaimers do sujeito que quer opinar sobre ações trata como natural o conluio silencioso entre grandes casas, bancos emissores e fundos alocadores. A regulação, na prática, protege quem já está dentro e cria barreira para quem tenta entrar. O algoritmo estrangeiro fura o bloqueio porque não precisa da bênção do regulador local. É a globalização financeira funcionando exatamente como deveria: minando monopólios domésticos de opinião paga.
A lição que ninguém vai ensinar na faculdade de economia é esta. Preço no mercado livre é o único mecanismo honesto de agregação de conhecimento disperso, e qualquer arranjo que se coloque entre o dado bruto e o investidor final, seja corretora, seja regulador, seja o próprio Estado, funciona como pedágio ideológico antes de funcionar como serviço. Quem quiser ganhar dinheiro na bolsa brasileira faria bem em desconfiar de todo homem de terno azul-marinho que aparece na TV explicando por que aquela ação subiu depois que subiu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.