Washington Quaquá convidou Silvio Almeida, homem indiciado pela Polícia Federal por assédio sexual, para ocupar cargo de coordenação num museu público e para integrar o corpo de uma universidade que o município de Maricá pretende criar com dinheiro público. Não há ambiguidade aqui, não há leitura apressada: o vice-presidente nacional do PT, eleito e reeleito com votos de gente real, chamou um homem que responde a processo criminal por violência contra mulher para sentar numa cadeira paga pelo contribuinte fluminense. O fato é esse. Simples. Nítido. Sem camadas.
O que torna a cena ao mesmo tempo hilária e nauseante é que o PT passou a última década erguendo uma catedral retórica em torno da proteção da mulher. Cada tijolo daquela catedral foi assentado com dinheiro público, com cotas, com secretarias, com conferências nacionais, com cartilhas impressas em gráficas licitadas e com ministérios inteiros cujo orçamento não financia proteção alguma, mas financia muito bem o próprio ministério. Silvio Almeida, não custa lembrar, ocupava exatamente um desses postos. Comandava o Ministério dos Direitos Humanos, o mais retórico dos ministérios, aquele que existe precisamente para dar ao Estado o verniz moral que seus atos jamais justificam. E foi de dentro desse posto que as acusações emergiram.
Agora, o gesto de Quaquá não é descuido nem torpeza momentânea. É doutrina. Quando uma organização política fecha fileiras em torno de um membro acusado, não porque acredita na inocência dele, mas porque ele é útil e porque o grupo não pode se dar ao luxo de parecer fraco perante seus próprios quadros, isso tem nome técnico: é a lógica da facção sobrepondo-se à lógica da justiça. Qualquer república da Antiguidade que estudasse seus próprios colapsos reconheceria o padrão: o partido que se torna uma corporação de interesses misturados com verniz ideológico termina invariavelmente protegendo seus membros dos mesmos princípios que proclama. A hipocrisia não é um acidente do sistema. É a estrutura do sistema.
E Maricá entra nessa história de um jeito que precisa ser dito em voz alta. O município é famoso por duas coisas: o petróleo que passa pelo seu subsolo via royalties e a moeda social que o PT local criou, a Mumbuca, apresentada ao mundo como modelo de economia solidária e distribuição de renda. Maricá é, na prática, o laboratório a céu aberto da utopia petista financiada por receita extraordinária de petróleo. Tem universidade em criação, tem museu para coordenar, tem cargo público para oferecer. Tem dinheiro que não vem do suor do contribuinte local, vem do chão, vem da renda mineral, o que na cabeça do gestor petista significa dinheiro sem dono e portanto dinheiro sem limite moral de aplicação. Quando o dinheiro não tem rosto, gasta-se com mais leveza. E quando se gasta com leveza, convida-se com mais desenvoltura.
O que a vítima pensa disso, ninguém perguntou. O que as mulheres de Maricá acham de ter seu município transformado em porto seguro de um homem indiciado por assédio, também ninguém consultou. A narrativa oficial já está sendo montada nos bastidores: Silvio foi perseguido, o processo é político, a Me Too foi instrumentalizada pela direita, e afinal todos têm direito à reinserção social. Esse argumento virá. Já veio em outros casos, com outras vítimas, em outras gestões. A consistência do PT não está nas causas que defende, está no método que usa para proteger quem precisa de proteção dentro da própria tribo. A causa muda; o método permanece.
Quaquá não cometeu um erro de comunicação. Quaquá fez uma declaração de valores. E os valores declarados são os seguintes: o indiciamento por assédio não é impedimento para cargo público, desde que o indiciado seja do partido certo e tenha o histórico de militância correto. O museu coordenado por um assediador será inaugurado com discurso sobre dignidade humana, pode ter certeza. A universidade que ele integrará terá disciplinas obrigatórias sobre relações de poder e gênero, quase com certeza. E nenhum dos professores que ministrar essas aulas sentirá a menor necessidade de notar a contradição, porque a contradição, para quem vive dentro dela, já não aparece como contradição. Aparece como política.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.