A cena merece moldura. Abre-se a Agrishow 2026, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, com hectares de máquinas, bilhões em negócios projetados e uma plateia que sustenta sozinha o saldo da balança comercial brasileira. Sobe ao palco a comitiva oficial, faz o discurso protocolar, sorri para as câmeras e desce sem anunciar absolutamente nada. Nenhuma medida, nenhum plano, nenhum alívio, nenhum gesto. O presidente da Faesp, Tirso Meirelles, fez o que qualquer pessoa lúcida faria diante daquilo: chamou o evento pelo nome verdadeiro, "o dia do não anúncio", e mandou a nota no sábado, dia 25, antes que a poeira do tapete vermelho assentasse.

Pois bem, vamos ao essencial, que é onde mora a graça da coisa. Quem paga a conta deste país? O sujeito que está ali, no estande, comprando uma colheitadeira financiada a juros que fariam corar um agiota de bairro, segurando insumos cotados em dólar, pagando ICMS sobre diesel, Funrural sobre o que produz, imposto sobre o que vende, imposto sobre o que compra para produzir o que vai vender, e ainda taxa ambiental, taxa sanitária, taxa de licenciamento, taxa de tudo que se possa taxar. Quem recebe? A estrutura que voou de Brasília a Ribeirão para subir num palco e dizer, em essência, nada. A relação está perfeitamente desenhada: um lado ordenha, o outro é ordenhado, e ainda paga pelo balde.

Há uma lógica de ferro aqui que ninguém quer enxergar porque é desconfortável demais. Se o agro é o motor da economia, como repetem os marqueteiros oficiais nos comerciais pagos com dinheiro do agro, por que ele precisa ir, todo ano, de joelhos, pedir que não o estrangulem ainda mais? A premissa do discurso oficial é que o produtor é o herói nacional. A premissa real, observável, é que o produtor é tratado como vaca leiteira de boteco, espremido até a última gota e desprezado quando ousa mugir. Conclusão inevitável, daquelas que nem retórica salva: o discurso e a prática não se encontram nem por acaso, e quando alguém aponta o desencontro, vira inimigo da pátria.

O leitor mais distraído ainda acredita que o palanque oficial existe para anunciar boas notícias. Engano histórico. O palanque existe para gerenciar expectativas, ou seja, para empurrar com a barriga. Não anunciar é uma medida; é a medida de manter tudo como está, que é exatamente o que serve a quem vive da máquina. Se baixassem juros do crédito rural, alguém perderia margem nos bancos públicos. Se simplificassem tributos, alguém perderia poder na fiscalização. Se desregulamentassem, alguém perderia o emprego de regulamentar. Cada não anúncio é um sim silencioso a um beneficiário invisível, e a regra é antiga: quando o governo não faz nada, é porque alguém está ganhando muito com esse nada.

A ironia do figurino completa o quadro. A mesma autoridade que sobe ao palco da Agrishow para não anunciar nada é a que aparece prontíssima quando o assunto é criar um novo imposto verde, um novo cadastro ambiental, uma nova exigência de rastreabilidade pensada em conferência europeia, uma nova taxa para custear comissão de acompanhamento da comissão anterior. Para criar peso, há agilidade olímpica. Para aliviar o lombo do animal de carga, há cerimônia, microfone e silêncio elegante. É a velha fórmula do soberano medieval que viajava à província para inspecionar a colheita: o camponês entendia que aquela visita custaria caro, e custava sempre.

O nome "dia do não anúncio" deveria entrar para o vocabulário cívico permanente. Serve para a Agrishow, serve para a indústria, serve para o pequeno comerciante, serve para o assalariado que abre o contracheque e descobre que metade evaporou antes de cair na conta. O Brasil oficial é uma sucessão de dias do não anúncio para quem produz e dias do anúncio generoso para quem vive da produção alheia. Enquanto o produtor paulista tiver coragem de chamar o rei pelo nome, e de notar publicamente que o manto imperial é, na verdade, um avental furado, ainda há esperança. O resto é folclore, fanfarra e nota fiscal.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.