O presidente do Democracia Cristã, João Caldas, vetou a filiação do ex-governador Wilson Witzel com uma frase que merece ser emoldurada e pendurada no Tribunal Superior Eleitoral: já tem muito doido no partido. Pare e releia. Não foi um adversário que disse isso, não foi um humorista, não foi um editorial maldoso. Foi o próprio cacique da legenda, em voz alta, no sábado, admitindo o óbvio sobre o estoque humano que ele mesmo administra. É como se o dono do açougue avisasse, na porta, que a carne está estragada, mas continuasse cobrando pelo quilo.

Convém lembrar quem paga essa fauna. O Democracia Cristã, como toda sigla nacional, mama no Fundo Partidário e no Fundo Eleitoral, dois nomes simpáticos para o mesmo confisco compulsório que tira do contracheque do trabalhador para sustentar diretórios, jantares, advogados e candidaturas vocacionadas ao fracasso. Estamos falando de bilhões de reais, retirados à força de quem nunca foi consultado, para financiar exatamente o tipo de figura que o próprio presidente da legenda classifica como doido. O contribuinte é o otário involuntário desse arranjo: paga a conta do circo e ainda leva culpa quando reclama do barulho dos palhaços.

Witzel, recordemos, é o sujeito que galgou o Palácio Guanabara prometendo abater bandido por helicóptero como quem caça javali, e desceu as escadas pelo impeachment, condenado pelo tribunal especial, acusado de comandar esquema de propina na saúde durante a pandemia. O currículo é eloquente. Mas note a ironia espessa: ele não foi rejeitado por causa disso. Foi rejeitado porque o estoque interno de excêntricos já está cheio. A vaga de doido oficial está ocupada, volte mês que vem. Há uma espécie de controle de qualidade às avessas, em que o problema não é a podridão do produto, mas a saturação do mercado.

O detalhe que fecha a comédia é que o DC apoia a pré candidatura presidencial de Aldo Rebelo, antigo quadro do Partido Comunista do Brasil, ministro do Lula, hoje reciclado em paladino conservador conforme sopra o vento eleitoral. Um partido chamado Democracia Cristã lançando comunista histórico para a Presidência, recusando ex governador bolsonarista por excesso de loucura interna, enquanto vive de dinheiro tomado à força do contribuinte. Se algum dramaturgo escrevesse isso há vinte anos, o crítico chamaria de inverossímil. Hoje é segunda feira na República.

O que está em jogo aqui não é a sorte pessoal de Witzel, que sobreviverá em alguma outra legenda faminta por puxador de votos no Rio. O que está em jogo é a estrutura inteira: trinta e tantos partidos registrados, a maioria sem militância, sem programa, sem coerência ideológica, existindo unicamente como balcões de negociação de tempo de televisão e cotas de fundo público. Sigla é, no Brasil, um CNPJ com direito a saque na conta da União. Pergunte a qualquer presidente de nanico o que ele defende e ele responderá com a planilha do repasse. O resto é figurino.

A próxima vez que alguém vier explicar a importância da democracia partidária e da pluralidade ideológica, lembre se da frase do senhor Caldas. Ela é o raio X mais honesto da coisa toda. Quando o próprio capataz reconhece, na luz do dia, que a fazenda está tomada de gente desequilibrada, e ainda assim segue cobrando pedágio do contribuinte para mantê la funcionando, o problema deixou de ser o doido que quer entrar. O problema é a casa. E a casa, infelizmente, tem o seu CPF como avalista.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.