Onze meses. É o tempo que Gilberto Waller ficou na presidência do Instituto Nacional do Seguro Social enquanto, por baixo do nariz dele ou com a cumplicidade explícita do ambiente que ele comandava, associações de duvidosa existência descontavam mensalidades diretamente do benefício de aposentados que, em boa parte dos casos, jamais autorizaram coisa nenhuma. O escândalo não é pequeno: estima-se que mais de 800 mil beneficiários foram lesados, numa operação que movimentou bilhões de reais por ano. A pergunta que nenhum comunicado oficial responde é a mais simples de todas: para onde foi esse dinheiro?
Há uma liturgia bem estabelecida para esses momentos. O chefe de alguma repartição é demitido com a solenidade de quem faz justiça, a imprensa publica a nota com ar de resolução, e o cidadão médio vai dormir achando que o problema foi consertado. Não foi. O que foi consertado é o problema de imagem. O problema real, que é a existência de um sistema compulsório de extração de renda sobre cada trabalhador formal do país, continua intocado, com seus 36 mil servidores, seu orçamento de mais de 800 bilhões de reais anuais e sua capacidade monumental de criar intermediários parasitários entre o contribuinte e o benefício que supostamente lhe pertence. Demitir o presidente do INSS por fraude sistêmica é como demitir o capitão do Titanic por molhar o carpete.
Observe a mecânica do crime com atenção, porque ela é instrutiva. O Estado criou a obrigação. O Estado criou o cadastro. O Estado criou o convênio com as associações. O Estado aprovou o sistema de desconto em folha sem autenticação robusta. O Estado, portanto, construiu cada peça do mecanismo que permitiu o roubo. E quando o roubo veio a público, o Estado demitiu um funcionário e nomeou outro. O contribuinte que teve seu benefício descontado ilegalmente, esse não recebeu nada ainda, exceto a promessa de que "medidas estão sendo tomadas", formulação que no vocabulário burocrático significa aproximadamente o mesmo que "aguarde".
Ana Cristina Viana Silveira assume agora como servidora de carreira, o que nos é apresentado como uma virtude em si mesma. Carreira pressupõe compromisso institucional, nos dizem. Pressupõe técnica. Pressupõe distância da política. Pode ser. Mas carreira também pressupõe décadas de socialização dentro do aparato, de internalização das regras não escritas, de aprendizado sobre o que se diz e o que se faz, sobre quais pedras se viram e quais se deixam no lugar. A servidora de carreira que sobe ao topo de uma autarquia deformada não chega lá apesar do sistema, chega lá por causa dele. Isso não é acusação, é descrição de como as instituições funcionam em qualquer país do mundo.
A questão de fundo, que ninguém quer nomear porque nomear custaria eleitoralmente, é que o INSS é um esquema de transferência forçada onde o trabalhador não tem escolha, não tem contrato, não tem propriedade sobre o que contribui e não tem garantia alguma de receber o equivalente ao que pagou. O trabalhador paga, o Estado gere, as associações conveniadas intermediam, os beneficiários recebem menos do que deveriam, e quando o escândalo estoura, o ciclo recomeça com novos personagens. Chama isso de previdência social se quiser. O nome técnico para um arranjo onde alguém toma o seu dinheiro à força, promete devolvê-lo mais tarde e ainda permite que terceiros façam fila para furar o caixa no meio do caminho é outro.
Waller sai. Silveira entra. O INSS permanece. Os beneficiários lesados continuam esperando. As associações conveniadas seguem existindo, algumas suspensas, a maioria em análise, todas com advogados. E o desconto compulsório na folha de pagamento de todo trabalhador com carteira assinada vai continuar na próxima sexta, e na que vem depois, e em todas as que vierem até que alguém no Brasil tenha a honestidade intelectual de olhar para esse arranjo e dizer, sem eufemismos, o que ele é. Mas não se preocupe. No próximo escândalo, demitem o novo presidente também.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.