Nasser Al-Khelaifi acumula três chapéus no mesmo cabide, e a promotoria francesa finalmente decidiu perguntar por que ninguém tinha notado antes. Presidente do Paris Saint-Germain, chefão da beIN Sports (a emissora catariana que compra os direitos de transmissão do futebol francês), e presidente da associação europeia de clubes. Três posições que, em qualquer manual básico de ética empresarial, jamais deveriam pousar no mesmo colo. Mas o dinheiro do Catar é bom, é abundante, e por quinze anos ninguém quis ver o óbvio.

Olha, o que está em jogo aqui não é um simples deslize burocrático. É o retrato acabado do que acontece quando fundos soberanos estrangeiros compram pedaços inteiros de uma economia e o Estado local finge que é normal. Quem compra os direitos de transmissão da Ligue 1? A beIN. Quem preside o clube mais rico da Ligue 1? Al-Khelaifi. Quem negocia os contratos entre a liga e as emissoras? Adivinhe. É como se o dono do time também apitasse o jogo, contasse a bilheteria e depois assinasse o cheque da própria arbitragem. E ainda esperam que o resultado seja limpo.

Quer dizer, a França descobre agora que futebol virou instrumento de política externa há uma década, e faz cara de espantada. O Catar não comprou o PSG porque gosta de futebol; comprou porque um clube em Paris rende influência diplomática, poder de barganha em contratos de gás, cadeira em fóruns internacionais e vitrine para lavar reputação. Chamam isto de soft power nos jornais chiques. No dicionário honesto, chama-se compra de influência com dinheiro público estrangeiro, e o cidadão francês paga a conta duas vezes: no imposto que financia o esporte nacional e no ingresso que financia o príncipe do golfo.

Me diz uma coisa, o que aconteceria se um empresário francês qualquer fosse simultaneamente dono de um jornal, presidente de uma agência reguladora de mídia e comprador dos anúncios do próprio veículo? Iria preso na segunda-feira. Mas quando o esquema envolve bilhões de dólares vindos do golfo Pérsico, monarquia absolutista e petróleo, a resposta institucional é levar quinze anos para abrir uma investigação preliminar, sem promessa de indiciamento. A lei, quando aplicada seletivamente, não é lei, é decoração.

Siga o dinheiro e verá o padrão. Os pequenos clubes franceses, esmagados pela distorção dos preços de transferência que o dinheiro catariano injetou no mercado, viraram figurantes. Os torcedores parisienses viraram consumidores de uma marca global que pouco tem a ver com Paris. Os cofres públicos franceses subsidiam a infraestrutura, os jogadores brasileiros são importados como commodities, e o lucro simbólico vai todo para Doha. Isto não é livre mercado, é capitalismo de compadrio com selo diplomático, o tipo de arranjo em que ninguém compete de verdade porque as regras foram escritas na sala de jantar do dono.

O escândalo real, portanto, não é a investigação, é o tempo que ela levou para nascer. Toda vez que um governo permite que um Estado estrangeiro vire acionista majoritário de setores estratégicos, do futebol ao gás, do imobiliário ao entretenimento, está renunciando a pedaços de soberania em troca de fluxo de caixa. E quando o esquema finalmente arranha algum promotor mais teimoso, o sujeito continua no cargo, sorrindo para as câmeras, esperando o abafa. Porque o dinheiro do Catar é bom, é abundante, e o próximo contrato de transmissão vence em dezoito meses.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.