Há algo de profundamente cômico, no sentido mais trágico da palavra, em ver o presidente do Senado Federal oferecer "apoio" aos senadores depois que estes, fartos de engolir sapo togado, resolveram cobrar dele uma postura minimamente vertebrada diante das investidas do Supremo Tribunal Federal. Davi Alcolumbre não se levantou por convicção, não se moveu por princípio, não abriu a boca em defesa das prerrogativas do Legislativo porque leu a Constituição e sentiu vergonha. Levantou-se porque sentiu a cadeira balançar. O gesto diz tudo sobre o personagem e sobre a instituição que ele preside: no Senado brasileiro, a coragem é sempre filha do medo, nunca da honra.
Observe a mecânica do episódio com olhos limpos. O STF vem há anos praticando aquilo que qualquer estudante de direito do segundo semestre reconheceria como usurpação de competência legislativa. Inquéritos abertos de ofício, decisões monocráticas com força de lei, bloqueios de plataformas inteiras sem que o Congresso tenha votado uma vírgula sobre o tema. E o que fez o Senado durante todo esse período? O que fez seu presidente? Exatamente nada. O silêncio de Alcolumbre não era prudência, era cumplicidade. Porque quando o Legislativo se cala diante de quem lhe rouba a função, não está sendo diplomático, está sendo servo. E servo que não reclama é servo satisfeito com a coleira.
A pergunta que nunca se faz em Brasília, mas que deveria abrir todo noticiário, é esta: a quem serve a submissão do Senado ao Supremo? Quem paga e quem recebe nesse arranjo? Paga o cidadão, que elegeu senadores para legislar e descobriu que quem legisla são onze pessoas que ninguém escolheu. Recebe a casta togada, que acumula poder sem o menor constrangimento democrático, e recebe o presidente do Senado, que em troca de não criar atrito garante para si a boa vontade do tribunal nos momentos em que precisa de favores processuais, liminares oportunas, ou simplesmente a ausência de uma investigação inconveniente. O jogo é velho. Quando o sujeito que deveria fiscalizar o poder se recusa a fazê-lo, pode apostar que ele está sendo remunerado de alguma forma, ainda que a moeda não seja o real, mas a impunidade.
Senadores de diferentes partidos, diz a notícia, cobraram reação. Ora, o fato de que a cobrança tenha vindo de "diferentes partidos" revela que nem a divisão ideológica usual foi capaz de mascarar o óbvio: o Supremo passou do ponto e todo mundo sabe. Quando governistas e oposicionistas concordam que algo está errado, estamos diante de uma daquelas raras situações em que a realidade se impõe sobre a narrativa. Mas não se iludam. A reação do Senado, se vier, será cosmética. Será uma nota, uma sessão solene, talvez um projeto de lei que tramitará por décadas nas comissões. Porque a verdade nua é que o Congresso brasileiro não quer seus poderes de volta. Poderes implicam responsabilidade, e responsabilidade implica risco eleitoral. É muito mais confortável terceirizar as decisões difíceis para o Judiciário e depois reclamar quando a conta chega.
O que estamos assistindo não é uma crise institucional. É o funcionamento normal de um sistema desenhado para concentrar poder nas mãos de quem não presta contas a eleitor nenhum. O STF avança porque pode, o Senado recua porque quer, e o contribuinte financia a farsa inteira sem ter sido consultado. Alcolumbre ofereceu "apoio" aos senadores como quem oferece um guarda-chuva depois que a tempestade já levou o telhado. O gesto é inútil, mas a foto fica bonita. E em Brasília, a foto sempre valeu mais que o fato. A pergunta que resta, como sempre, é a mesma de sempre: quem paga essa conta? Você. E quem recebe? Todos eles.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.