Existe uma categoria específica de desonestidade intelectual que consiste em publicar um número verdadeiro com um enquadramento falso. O Datafolha divulgou que 59% dos brasileiros defendem a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. A manchete foi estampada como se fosse um veredicto popular contra o ex-presidente. O que a manchete não disse, e que qualquer pessoa alfabetizada em matemática básica percebe em trinta segundos, é que 59% defendendo a prisão domiciliar significa que 63% da população, somados os indecisos, não quer Bolsonaro numa cela. A prisão domiciliar não é prisão; é uma condição jurídica que o próprio sistema criou como alternativa ao encarceramento. Quando a maioria "favorável à punição" escolhe a opção mais branda disponível, o dado que você tem em mãos não é uma condenação popular, é uma absolvição constrangida pelo cardápio de respostas que foi oferecido.
Agora vamos ao problema filosófico mais sério, porque esse não é apenas um caso de estatística mal lida. Desde quando a opinião pública determina onde alguém deve dormir à noite? A ideia de que a lei existe para proteger o indivíduo contra a maioria, e não para executar os desejos da maioria contra o indivíduo, não é uma novidade do século vinte. É o fundamento de qualquer ordem jurídica que mereça o nome. Quando você substitui o devido processo legal pela pesquisa de intenção, não está fazendo justiça, está fazendo linchamento com microfone e terno. A multidão que jogava pedras na praça pública ao menos tinha a honestidade de aparecer com as mãos sujas. A versão moderna terceiriza a violência para o instituto de pesquisa e chama isso de termômetro democrático.
O que o processo contra Bolsonaro revelou, para quem tem olhos e não os usa para fins decorativos, é a mecânica do Estado quando decide que alguém precisa ser destruído simbolicamente. Não se trata de aplicar a lei com equanimidade, aquela virtude tão bela nos livros de jurisprudência e tão rara nos cartórios reais. Trata-se de construir um espetáculo de imputação que funcione como aviso aos próximos. Os romanos tinham um nome para isso: a damnatio memoriae, a condenação da memória, instrumento pelo qual o poder apagava não só o homem mas a legitimidade de tudo que ele representou. A diferença é que os romanos ao menos eram honestos sobre o que estavam fazendo. Proclamavam abertamente a destruição política do inimigo. Aqui se finge que é a Justiça falando, e não o poder nu, recém-depilado e perfumado com o colônia da institucionalidade.
Sigamos o raciocínio até onde ele dói. Se 37% querem Bolsonaro numa prisão de verdade e 59% querem a versão doméstica da punição, a pergunta que o instituto não fez, porque a resposta inconveniente saltaria da página, é quantos desses 96% acompanharam as peças do processo com alguma profundidade. Quantos leram as alegações finais. Quantos sabem distinguir uma prova de um indício, um indício de uma hipótese, uma hipótese de um desejo político com toga. A opinião pública sobre matérias jurídicas complexas tem aproximadamente o mesmo valor epistêmico que a opinião pública sobre física quântica. Não é insulto ao povo, é respeito à natureza das coisas. Ninguém defende que o eleitorado vote sobre a tabela periódica. Por que deveria votar sobre a dosimetria da pena de um ex-chefe de Estado?
O Datafolha tem toda a legitimidade do mundo para fazer perguntas. O problema é o que se faz com as respostas quando elas não saem como planejado. Uma pesquisa que esperava encontrar um clamor por encarceramento e encontrou uma maioria tímida pedindo que o homem durma em casa, num país onde presos comuns dormem empilhados em delegacias superlotadas, é uma pesquisa que diz mais sobre o estado de espírito do encomendante do que sobre o humor do encomendado. O dado está lá, honesto, teimoso, recusando-se a virar o que queriam que ele fosse. E a imprensa, fiel ao seu ofício contemporâneo de produzir a percepção antes de reportar o fato, vestiu o número com o chapéu errado e foi dormir satisfeita. O leitor que não parou para contar nota dez em submissão voluntária. O leitor que parou ficou com uma pergunta sem resposta: quem, afinal, está sendo investigado aqui?
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.